(FreePik) Quando o céu se veste de cinza e o frio anuncia sua chegada, minha alma viaja no tempo, rumo aos anos 60, a década dourada da juventude. Ali, minha história se entrelaça à da Casa do Estudante Universitário do Paraná (CEU), um refúgio de esperança onde tive a honra de ser o primeiro orador. A CEU, uma verdadeira república de almas livres, escolhia seus líderes a cada dois anos, num ritual democrático que celebrava o poder da voz coletiva. Nosso estatuto, feito bússola, garantia que um par de oradores ecoasse os desejos e as inquietações de todos. Setembro de 1965. A banda de Beppo e Seus Rapazes embalava corações, enquanto Angela Vasconcelos, a deslumbrante Miss Brasil de 1964, brilhava ao orquestrar um baile beneficente em favor da CEU. Com o apoio do jesuíta, padre Gustavo Pereira, nosso capelão, o evento de caridade se tornou realidade. Éramos os artesãos daquele momento: decorando mesas, comandando o bar, ajustando o som e acendendo as luzes que fariam o salão brilhar sob o manto da solidariedade. A missão delicada englobava a venda dos ingressos e o controle de acesso, garantindo que cada convidado fosse acolhido com dignidade. Ainda moradores provisórios, fomos escolhidos, junto com outros dois calouros, para trabalhar na portaria, precisamente na administração dos conflitos daqueles que se diziam convidados sem convites. Muitas conversas, divergências e decisões acaloradas ocorreram para permitir ou impedir o acesso ao baile. Concomitantemente, em Curitiba, a efervescência política incendiava a cidade. Na CEU, o clima era de resistência silenciosa. Era um caldeirão de ideias, egos e personalidades diversas, onde o respeito era nossa lei maior. Cada opinião, uma semente de reflexão. Cada divergência, uma ponte para o entendimento. Aprendíamos na prática que conviver com as diferenças e as opiniões opostas era o segredo da nossa sobrevivência, pois a CEU não era apenas um abrigo; era um porto seguro, um lar para jovens de famílias humildes, vindos de todos os cantos do Brasil cheios de esperanças. Viver na CEU foi, sem dúvida, um privilégio. Ali, cruzei com mentes brilhantes, futuros líderes e profissionais de tirar o chapéu. Minhas memórias são tecidas por debates acalorados sobre gestão, por discussões sobre a responsabilidade de administrar egos, tudo para garantir que a Casa permanecesse de pé, forte e acolhedora. À CEU, minha eterna gratidão. Ela não foi apenas a ponte para minha formação profissional, mas o alicerce da minha essência, onde aprendi o verdadeiro valor do respeito, da solidariedade e da esperança. *José Geraldo Gomes Barbosa. Engenheiro, advogado e mestre em Direito Ambiental