[[legacy_image_297282]] Quantas memórias encravadas naqueles dois seres tão próximos, mas também tão distantes, que precisavam viver juntos para ajudarem-se um ao outro. As expressões vazias revelavam o tempo passado e os papéis trocados. Mãe e filha, laços parecidos, carência de afetos. A mais jovem e a senhora claudicante compunham um par adormecido, mas atento, um paradoxo em que a rotina, certamente, retirara delas a alegria de viver. O medo da senhora e os cuidados da mais jovem era o que se podia observar como atos rotineiros de uma existência. As duas mulheres que vi enquanto andava na calçada que beirava a praia, onde muitos caminhavam solitários ou acompanhados, cada qual com a sua história de vida, compondo um coletivo que poderia ser mais notado, mais tratado e, até, mais respeitado. Hoje, porém, as pessoas preferem “possuir” um universo de “amigos” nas redes sociais, mas permanecem equidistantes de tudo o que está tão próximo e em plena carência de afeto. Discretamente, observava a todos, mas prestei mais atenção às duas senhoras, certamente mãe e filha. A mais velha, apoiava-se numa bengala, amparada pela mais jovem. Os papéis estavam invertidos pelas circunstâncias. A filha tornara-se mãe da própria mãe. Voltei no tempo e revi essas duas mulheres. A mãe, zelosa, a conduzir a filha ainda pequena, cuidando para que a criança não se machucasse nem se sujasse. Ambas, seguramente, felizes. Consegui, então, melhor absorver os aromas diversos, oriundos das flores, misturados à maresia. O burburinho provocado pelas pessoas e pelo trânsito menos intenso, misturados aos cantos dos pássaros, provocavam um bem-estar imenso a quem podia usufruir daquele ambiente. Como teriam vivido bons e felizes momentos aquelas duas pessoas que o tempo transformou e as tornou mais tristes. Certamente, com o passar do tempo, as mudanças de hábitos foram acontecendo: para a filha, o período escolar, a chegada da adolescência e as descobertas da jovem adulta, as escolhas das opções de vida, os compromissos amorosos e tantas outras alternâncias de relações. Mãe e filha vivendo as sucessivas fases das suas vidas, que moldaram essa união efetiva. O afeto estava presente, quase imperceptível, um elo a unir essas duas criaturas tão especiais. Mas não era, ainda, o fim da relação. A convivência tão digna entre mãe e filha, talvez cansadas, ambas, mas esperançosas por dias melhores, mas certas de que o compromisso, associado à afetuosidade, as mantinha mais unidas. Por algum tempo eu ainda as vi, caminhando e distanciando-se, levando com elas histórias, semelhantes ou diferentes das de outras pessoas. Eu as apreciava com olhos de curiosidade e preocupação. Cresceu, dentro de mim, a necessidade de melhor idealizar as situações pretéritas para poder compreender, com mais exatidão, o momento presente. Veio à minha mente um desejo enorme para que o mundo pudesse se transformar em um grande e saudável ambiente, mais humano, menos desigual e mais simples de se bem conviver.