<p data-end="444" data-start="173">A conhecida frase “ser mãe é padecer no paraíso” revela mais do que um paradoxo; ela denuncia uma estrutura social profunda. Sob o véu da romantização, esconde-se uma experiência marcada por ambivalências: amor e exaustão, potência e invisibilidade, criação e apagamento.</p> <p data-end="779" data-start="446">Em sociedades patriarcais, a maternidade foi historicamente construída como o destino natural das mulheres, mas sem o devido reconhecimento social, econômico e simbólico. Quando o ato de cuidar é atravessado por sobrecarga, isolamento e culpa, ele deixa de ser um espaço de florescimento para se tornar um campo de desgaste contínuo.</p> <p data-end="1068" data-start="781">Estudos longitudinais mostram uma piora consistente da saúde mental materna nas últimas décadas. Relatórios recentes apontam que a proporção de mães que se consideram em excelente estado psicológico caiu drasticamente, enquanto aumentaram os relatos de bem-estar regular ou insuficiente.</p> <p data-end="1412" data-start="1070">Nove em cada dez mães no Brasil sofrem de burnout parental, uma exaustão emocional extrema decorrente da sobrecarga de cuidados e da ausência de redes de apoio sólidas. Esses dados revelam uma verdade incômoda: a maternidade, como estruturada hoje, adoece mulheres - não por falha individual, mas pela exigência de dar conta de tudo sozinhas.</p> <p data-end="1788" data-start="1414">A responsabilização quase exclusiva das mães pela educação e pelo desenvolvimento das crianças revela uma falha estrutural. Embora recaia sobre elas o peso do cuidado, evidências mostram que o desenvolvimento infantil é influenciado também pela saúde mental paterna e pelo contexto familiar como um todo. Ainda assim, a cobrança cultural segue concentrada sobre as mulheres.</p> <p data-end="2016" data-start="1790">Há uma contradição central na modernidade: fala-se em autocuidado, mas não se transformam as condições que o tornam possível. Sem redistribuição de responsabilidades, a valorização individual se torna apenas mais uma cobrança.</p> <p data-end="2290" data-start="2018">Nos últimos anos, o debate sobre o cuidado como um trabalho fundamental e desigualmente distribuído tem ganhado força. Sem políticas públicas efetivas (como acesso à saúde mental, educação integral e licenças parentais) a maternidade seguirá sendo um espaço de sobrecarga.</p> <p data-end="2519" data-start="2292">Reconhecer a potência das mães não deve significar a naturalização de sua sobrecarga. Mulheres realizam feitos extraordinários, mas esse heroísmo não pode continuar sendo usado como justificativa para que continuem sem suporte.</p> <p data-end="2768" data-start="2521">Transformar a maternidade em um espaço de cidadania exige mudanças culturais, políticas e relacionais. Só assim será possível construir uma sociedade mais justa para mulheres e crianças, convocando também os homens ao exercício efetivo do cuidado.</p> <p data-end="2923" data-is-last-node="" data-is-only-node="" data-start="2770">*Berenice Shakti. Fisioterapeuta pélvica, especialista em saúde pélvica e sexualidade e autora dos livros “O Diário de Adelaine” e “Cartas para Adelaine”</p>