(Reprodução) Muito refleti acerca do que poderia escrever sobre Martins Fontes (1884-1937). Junho, mês que inevitavelmente o convoca à memória daqueles que ainda preservam algum culto pela alta literatura, não merecia passar sem uma breve homenagem ao Poeta. Por razões contratuais ligadas à biografia que concluí, extensa investigação repartida por três volumes, não me é possível revelar aspetos substanciais desse trabalho. Ainda assim, ocorreu-me recordar um episódio particularmente significativo. A estreita amizade que mantive com o seu sobrinho Roberto Fontes Gomes (1926-2010) e com a Senhora D. Isette Martins Fontes (1913-2005) permitiu-me receber inúmeros objetos pertencentes ao Poeta. Manuscritos, livros, fotografias, correspondência, apontamentos dispersos, pequenas relíquias domésticas, vestígios materiais de uma existência cuja grandeza intelectual permanece admirável. Há uma melancolia singular nos espólios literários. Um tinteiro, uma dedicatória esquecida ou uma margem anotada a lápis podem revelar mais sobre um espírito do que longos tratados académicos. Talvez porque os objetos conservem, silenciosamente, a intimidade daqueles que os tocaram. Por essa razão, decidi criar o “Acervo Martins Fontes” dentro do “Arquivo e Biblioteca Rui Calisto”, organismo destinado à preservação futura desse património, que será posteriormente disponibilizado em espaço de exibição pública, honrando a memória de um dos grandes nomes da Língua Portuguesa e da Medicina. Entre os muitos “mimos” recebidos, houve um que particularmente me impressionou: um exemplar de Espiritismo Racional e Científico (1914), livro profundamente estimado por Martins Fontes. Ao lê-lo, compreendi melhor a dimensão espiritual que alimentava o seu humanismo e o lema que tão bem definiu a sua vida: “Como é Bom Ser Bom!”. Talvez resida aí a verdadeira grandeza de Martins Fontes. Não apenas no médico brilhante, no intelectual respeitado ou no poeta de rara sensibilidade, mas no homem que procurou transformar conhecimento em compaixão. Num tempo em que tantas figuras públicas parecem consumir-se em vaidade, ambição ou cálculo, a memória de Martins Fontes permanece como uma discreta lição de elevação moral. Que cada ser humano receba no coração a Luz de Martins Fontes. Ámen. *Rui Calisto. Investigador e escritor