[[legacy_image_320098]] Quando a amiga presenteou-me com um livro de título esquisito, instigante, escreveu na dedicatória desejar que “a leitura fosse tão proveitosa” quanto havia sido para ela. Por que a autora, a médica paliativista Ana Cláudia Quintana Arantes, assegurava, com todas as letras, que “A morte é um dia que vale a pena viver”? Ao contrário de tantos que recuam quando o assunto é a morte e o morrer, para mim não é assustador falar sobre esta pauta que regula o começo, o meio e o fim de todo ser na Criação. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Em 1988, muito antes do livro que ganhei em 2016, eu entrevistara Barbara Swirska, polonesa carismática, cheia de vigor e sensibilidade a falar sobre seu ofício como tanatóloga: acompanhar pacientes terminais, ajudando-os e às famílias na hora grandiosa de partir deste mundo rumo ao Todo. Barbara ensinou-me, principalmente, a não disfarçar ou calar emoção e sentimentos diante daquele que, ao fim da jornada, é generoso a ponto de nos ensinar sobre esse limiar. Juntou-se a esse time de sábios experientes o médico Atul Gawande, sem meias palavras ao escrever “Mortais – Nós, a medicina e o que realmente importa no final”. Usamos vários eufemismos para falar de morte (final, passagem, despedida, partir) porque temos dificuldade para nominar algo que não entendemos, não alcançamos e não controlamos. Imagine ser a morte maior que os nossos egos! Gawande e Ana Cláudia tiram os véus e nos fazem olhar para o que realmente importa: a vida que se leva aqui e agora, as relações que estabelecemos, as oportunidades para ir quitando as faturas que vêm com nosso nome e firma reconhecida. Assim, na hora de pedir que os anjos abram caminho para o nosso pouso, quem sabe aterrissamos com leveza. Falta-nos sabedoria no compasso do tempo vivo. Desprezamos o lugar de mortais e aspiramos o Olimpo! Embora marchemos todos para lá, sem hora marcada para ninguém, passamos a vida como se tivéssemos um pacto com a imortalidade. Até que a finitude se apresenta traduzida na função renal comprometida, no coração que já não bate como antes, nos pulmões que não se enchem de ar por seu próprio esforço. Esses sinais acenderam o pisca-alerta nos 93 anos de minha mãe, e a levaram aos procedimentos que a medicina conhece e que salvam vidas. E tenta prolongá-las mesmo quando se extingue a qualidade que um dia as sustentou. No momento dessas linhas escritas enquanto vigio sua sonolência no hospital de transição SerPiero, pioneiro nesse tipo de atendimento na nossa região, penso na folha de bons serviços que a mãe prestou, com o mérito de ter criado quatro filhos e a indecifrável força de ter enterrado um. Os desertos e planícies que a mãe atravessou se cruzam agora no sossego dos cuidados paliativos, este humano viés da medicina que dá ao indivíduo o lugar de dignidade, com direito a tomar um sorvete, a receber a visita do cachorro, a tomar banho de sol no solarium, e a livrar-se de fios, tubos, máquinas e isolamento. O que realmente importa no final é que estejamos vivos para nos despedir da nossa história com respeito e gratidão.