[[legacy_image_304777]] A liberdade do desejo e a emancipação do corpo são estradas com obstáculos incessantes. Tenhamos orgulho de sermos conterrâneos de uma das maiores pensadoras do nosso tempo, a santense Djamila Ribeiro. Filósofa, cunhou uma densa linha de reflexão a partir de um conceito que tem se popularizado felizmente: lugar de fala. Trabalha com a contextualização das narrativas sobre dado enunciado de opinião ou ideia. Diz de modo vivencial, carregando todas circunstâncias e as chances de engajamento de sua verbalização, conforme posição numa sociedade estratificada de discursos e desigual pela inserção de quem expressa. A ex-ministra do STF Rosa Weber, com seu discreto charme no envolvimento de uma sociedade ainda comportamentalmente arcaica em relação a temas espinhosos, fez história no ocaso de sua trajetória jurisdicional. Do civilizado Uruguai a quase todos países europeus, a descriminalização do aborto é garantia de direito reprodutivo e sanitário, indo desde a Espanha à Itália, povos culturalmente associados à nossa formação. Países extremamente católicos, mas onde as injunções religiosas não se sobrepõem à consciência livre da sociedade engajada. Notem bem como se coloca a demanda: não se trata de legalizar, discute-se descriminalizar em nome da dignidade da mulher e a equidade de gênero no poder decisório sobre seu corpo e destino. O Poder Legislativo, tutelado em grande parte pelo pensamento falocrático (se é que pensa), indiferente a lutas já assentadas no primeiro mundo, corre contra o tempo premido pelo STF, que acusado de açodamento decisório corresponde à vanguarda ideológica do planeta. Insegurança jurídica é o marasmo deliberativo, com a omissão de quem deveria há décadas trazer a si o ônus das deliberações sobre o aborto, a descriminalização de drogas leves e o casamento homoafetivo, que agora corre risco nas mãos de obscurantistas mentais. No meu ideário, aponto ao próprio acovardamento da esquerda retrógrada que defende regimes de Maduro, Ortega e do fascista Putin, calando-se sobre aborto e casamento gay. Minha esquerda, desde Foucault, é a que se insurge diante da tirania contra o desejo pelo discurso que sequestra a fala e os rumos de quem deveria decidir. Qual lugar de fala das jovenzinhas de periferias sem nenhuma assistência e educação gestacional entregues à própria má sorte? Um poder que fetichiza a atribuição reprodutiva da mulher sem nenhum suporte ou garantia à subsistência e à segurança sua e do nascituro? Rosa Weber, sabiamente, provocou para ampliar o debate. Por que não um plebiscito para aprimorar a maturidade na abordagem? Procurem conhecer os efeitos da descriminalização nos números e racionalização do tema. Recorro à frase da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie: “O feminismo não diz que você não pode casar e ter filhos, e sim que você deveria ter uma escolha. O feminismo quer que as mulheres escolham”. As mulheres, não tenho dúvida, se encarregarão na conscientização sobre sua libertação. Agora, resta aumentar o arco de homens feministas, porque a causa deve ser impregnada pela empatia com a dor de nossas companheiras noutra margem da condição humana.