[[legacy_image_313849]] Pagu sempre me soou um espanto de luta e erudição. Ela desmente o estereótipo da intelectual encerrada num gabinete eqüidistante das lutas do homem comum. Revolucionária com voracidade cultural assombrosa, sem nenhuma formação acadêmica foi farol ímpar da Alta Literatura mundial no Brasil na maior parte do tempo em Santos. Em Santos ao lado de Geraldo Ferraz foi responsável por movimentos que desaguariam nos tsunamis estéticos dos anos 60 que ela pouco viveu. Plínio Marcos é cria de Pagu, Zé Celso foi cria de Pagu, ouso elucubrar que a Tropicália é em muito fruto dos derradeiros ecos modernistas estilizados por Pagu. Mas Pagu era maldita e espero conheça caro leitor o sentido “baudelariano” do termo maldito. Pagu, segundo relatos de contemporâneos com os quais convivi, como Gilberto Mendes e Cid Marcus, vivia obscuramente em nossa terra, não obstante o círculo boêmio de jovens discípulos , o zelo quase paterno de Geraldo e o aval da então direção de A Tribuna. Escritores malditos são logicamente malvistos pela burguesia e aqui não foi diferente. Pagu liberta, Pagu que bebia, Pagu que falava um idioma até hoje estranho às convenções. Pagu descobriu Arrabal, dramaturgo espanhol que ainda vive, descobriu Octávio Paz, Prêmio Nobel que com seu O arco e a Lira é referência para todo crítico literário que se preze. Pagu era versada em autores que pouca gente conhecia ainda. Promoveu nossa Hilda Hilst, antecipou para nós o poder da obra de Borges, Pagu era onipresente e onívora: estava em toda parte e consumia todos saberes que só iriam se projetar décadas depois. Mas Pagu também amou muito, teve filhos, passou pelo cárcere! Ela hoje seria a desmoralização de qualquer necessidade de Inteligência Artificial. Me espanta porque em pouco mais de 50 anos pensou e viveu conhecimentos que demandariam centenas de cátedras. A redescoberta de Pagu por Lúcia Teixeira é primeiro um ato de pungente generosidade. Lúcia exegeta duma mulher-caos, duma mulher- caleidoscópica, empreendeu tarefa que tanto falta ao Brasil: a arqueologia literária. É da ordem quase mediúnica essa cumplicidade Pagu e Lúcia. Li e reli Os cadernos de Pagu num átimo de novo assombro: Pagu discorrendo sobre a quase desconhecida Clarice Lispector, Pagu trocando carta com um imenso escritor que até hoje continua remoto: o contista Samuel Rawet, Pagu redimensionando Vicente de Carvalho não só parnasiano, mas pré-modernista como Monteiro Lobato e Lima Barreto. Pagu tem uma sintaxe pós-moderna, Pagu tem um pensamento estruturalista quando nem sonhavam com essas escolas. Lúcia imantou com maestria o que Pagu fez com outros gênios: rastreou com perícia, iluminou o que agora já se torna cânone de pesquisa e inspiração. Esta obra que nasce prima me reforçou a paixão Pagu por Pagu compartilhar meus dois amores: Santos e a Literatura. Pagu, que esteve do Japão a Manchúria, escolheu esse porto mágico e num artigo salvo por Lúcia onde analisa Ribeiro Couto me veem essa pérola: Santos não é bem um tema, mas uma solução sempre aberta... Santos não é um tema, quero dizer, um assunto fechado, um limite, mas uma expansão. Li-o esse trecho brindando ao mar santense tendo Pagu feito musa na teoria e prática. Chorando de admiração porque se chora de admiração me pus silente refletindo: Pagu escrevia como Barthes antes de Barthes! Que mulher foi essa? Lúcia querida irmã em letras, quanto sutileza desvendaste numa entrega rara!