[[legacy_image_337241]] Para a maior parte, ler é uma diversão. Para outros, fonte de aprimoramento profissional. Para alguns, é um destino dado. Sempre à procura de preciosidades em sebos e acervos raros, visitando para pesquisa a estonteante biblioteca doada por José Mindlin à USP, eu me deparei, não muito longe, com uma exposição imensa de livros garimpados pelo professor Delfim Netto em seus 95 anos de dedicação intelectual. Lucidamente ferino, ainda intensamente ativo na reflexão socioeconômica, Delfim é um dos personagens mais controversos do nosso pós-guerra. Amado e odiado como um Kissinger tropical: serviu a vários governos da ditadura, formulou políticas públicas exitosas, colecionou fracassos rotundos, consultado por lideranças de todos matizes, inclusive da esquerda nacional. Lembra-me Tayllerand, o diplomata francês que serviu a revolução, aos monarquistas até de novo urdir sua queda. De Costa e Silva a Lula, todos o ouviram. A mim fascina o pensamento sutil, o humor sofisticado e especialmente a visão holística da economia, uma ciência ou arte de amplo espectro humano. O célebre Hayek diz-nos: “Ninguém pode ser um grande economista se for somente um economista”. Isso deve servir a advogados, médicos, arquitetos... Uso a elucubração sobre Delfim e a exposição na Faculdade de Economia e Administração, também à disposição digitalmente, para pensar com vocês sobre a importância de uma política de acervos em cada cidade que se preze cultivada. Para onde seguem as bibliotecas particulares depois da partida de um detentor sem herdeiros à altura dos seus interesses? Por que no Brasil são raros casos de intelectuais preocupados com a perpetuação dos seus livros reunidos organizadamente num só espaço de consulta ao público? Nas renhidas disputas por espólio e herdades, o que menos se leva em conta é a preservação de documentos e obras que revelam a passagem do espírito do seu detentor pelas páginas. Pudera todo escritor ter o zelo que João teve com o pai Portinari ou que surgisse um anjo para nos trazer o legado de Patrícia Galvão como feito pela escritora Lucia Teixeira. Recordo com que esmero o também uspiano Gilberto Mendes dedicou a maior parte da sua biblioteca, partituras e esboços ao Departamento de Música do campus de Ribeirão Preto. Colegas autores, bibliófilos, colecionadores, pensemos no encaminhamento em vida e para instituições que cuidem com tanto carinho quanto o dedicado por décadas no seu recanto de ilustração. Os livros ainda terão um longo caminho de uso por gerações sequiosas e a tecnologia ainda fortalece mais esse apreço com o potencial de digitalização a alcançar pesquisadores por todo canto. Com o tempo, já atualizei umas três vezes minha biblioteca, sempre direcionando ao leitor certo meu Shakespeare anotado, meu Proust sublinhado ou a amada Clarice Lispector que foi perdendo capa ou desfolhando por tanto uso. Livros são feitos para serem compartilhados. Hoje, conservo os de uso contínuo para consulta aplicada a novas obras e aulas. A sorte é ter em Santos um órgão como a Fundação Arquivo e Memória para saber em vida um bom caminho aos meus livros depois de cerrar as pupilas cansadas.