(Pixabay) Quem lê apaixonadamente precisa sempre de um método mínimo de organização. Recomendo nas oficinas literárias que ministro faz décadas algo simples, mas difícil em tempos agitados: um conto por dia, um poema por noite, um romance a cada 15 dias. Por ofício, leio mais de um conto por dia. E tenho meus clássicos pessoais, caro leitor e leitora: A Moça Tecelã, de Marina Colasanti; A Caçada, de Lygia Fagundes Telles; e Olhos D’água, de Conceição Evaristo. Já que falo em escritoras, aproveito dizer que não precisamos de estatística para saber que as mulheres leem bem mais e com melhor qualidade que os homens. E voltando falar em escritoras, me rendi a ler Annie Ernaux, que ganhou Prêmio Nobel de Literatura em 2022. Ela esteve em Paraty, falou-se muito em seu tom confessional, a tal de autoficção. Li Os anos e O Lugar. Gostei muito, mas confesso que não a ponto de imaginar que ela merecesse o Nobel. A sra. Ernaux não chega aos pés da nossa Clarice Lispector e passa longe da genialidade de Guimarães Rosa, mas por que o Brasil não emplaca um Nobel? Não que o Nobel importe tanto, mas dá prestigio a uma literatura nacional. Não temos políticas para literatura como produto de exportação. A literatura aqui nunca foi prezada. O português é muito falado, mas traduzem ainda pouco. Porém, não só de poemas vive o poeta. Recomendo duas obras de não ficção que me prenderam. Cachorros, de Marcelo Godoy, é um retrato perfeito dos erros de avaliação histórica de nossa esquerda e tem um capítulo tocante sobre o martírio do santista Rubens Paiva. A sordidez psicótica da ditadura é esmiuçada detalhadamente. No mesmo diapasão de resgate, América Latina, Lado B, de Ariel Palácios. Apesar da tragicidade intrínseca ao populismo e personalismo, chagas com poucos hiatos de sensatez, subsiste aí hilariante comicidade de tiranetes de bananas. Faltou talvez mais de Perón, o modelo-mor aos que confundem assistencialismo com mudanças estruturais. Isabelita nonagenária é derradeiro fóssil vivo do começo da decadência argentina. Será que é possível depois de ler Ariel que ainda considere Maduro, um bandido comum, líder de esquerda? Por aqui, esquerda possível só do jovem chileno Boric e do sábio ancião visionário Pepe Mujica. Agora, um livro que desejo reler é Quando Deixamos de Entender o Mundo, do também chileno Benjamin Labatut. O que nos salva na América Latina é sua literatura! O jovem brilhante discorre sobre ciência como quem faz ficção num misto de ensaio e conto fantástico. Lembrou-me de alguma forma o Huxley de As Portas da Percepção. Labatut é capaz de agradar aficcionados de romances, médicos (os que ainda leem), físicos , químicos ou poetas. Entender o mundo é o que mais tentamos em vão. Detalhe: o livro está caro? Neste porto mítico onde vos escrevo, encontro muitas destas obras-primas contemporâneas num projeto brilhante, o Leia Santos, coordenado pelo filósofo amigo Rodrigo Lucheta, exemplo de livraria circulante que nos abastece de preciosidades do saber. Parafraseando a velha Seleções, ler é o melhor remédio! *Flávio Viegas Amoreira. Escritor e membro das Academias de Letras de Santos e Praia Grande