[[legacy_image_311024]] Entre o horror da guerra e a seca na Amazônia, zapeando as inevitáveis chamadas sobre celebridades ou nas onipresentes TVs de bares e rodoviárias, pesco algumas notas curiosas sobre o distante mundo (de mim) das futilidades. O casamento da doce Sandy teria Tolstói como pivô indireto por seu marido ter um “estalo de Vieira” ao ler a novela clássica A Morte de Ivan Ilitch. De outra sorte, seu irmão Junior teria decidido voltar à carreira musical ao assistir alhures a célebre e derradeira entrevista da mágica Clarice Lispector para a TV Cultura em 1977. Por último, e nunca por fim, soube da atenuação da pena do réu por filicídio Alexandre Nardoni pela leitura da Carta ao Pai, de Franz Kafka. É sabido que a alta literatura é sempre pedagógica, é sabido que ler os clássicos nos modifica (quase sempre para melhor) por toda vida, é sabido que ler é uma atividade insuperável em busca de autoconhecimento e é sabido que escolas, governos e pais têm feito pouco para motivar os jovens ao hábito sagrado da leitura. Imagino o quanto Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, pode ajudar um arquiteto a perceber o insondável poético em dada comunidade e seu espaço. Vibro com o poder do conto Angústia, de Anton Tchekhov, a um terapeuta sobre a intransferibilidade do sofrimento. Ninguém sofre igual outro, ninguém calcula realmente sofrimento alheio. Sobre o mistério da vida? Leia A Terceira Margem do Rio, de Guimarães Rosa. Sobre a coragem de mudar? Indico A Luz da Outra Casa, de Pirandello. Quer levar ao espaço sideral uma ideia relatando o que fomos nesse planetinha de dor e algum encanto? Inevitável ler o poema Tabacaria, de Fernando Pessoa. Contra o racismo? Que força no conto A Fronteira do Asfalto, de Luandino Vieira. Contra homofobia? Aqueles Dois, do nosso Caio Fernando Abreu! Sobre a beleza e seu preço, sempre volto ao Retrato de Dorian Gray, romance do mestre Oscar Wilde. Mas se quer indicar a um jovem uma obra para enfrentar o mundo, presenteie com O Lobo da Estepe, de Herman Hesse. Oficinas literárias não têm objetivo terapêutico, mas confesso que a literatura vem operando milagres faz milênios. Lendo André Gide, aos 15 anos, eu mesmo tomei forças para todos meus caminhos. Se falo de literatura, incluo a filosofia sua irmã siamesa: Spinoza me cura de quase todas as dores. E felizmente existe reposição de estoque de obras-primas: poemas de Conceição Evaristo, contos de Mia Couto, romances de Jonathan Fraser... E no aspecto fraterno, como a literatura nos aproxima de outras almas raras. Só para citar médicos literatos, que prazer discorrer sobre Dostoiévski com seu expert, o neurocientista Edson Amâncio, e sobre Borges sempre me socorro da interlocução com o geriatra Weldon Rosa Lima. Um médico que lê ganha outra perspectiva dos labirintos da cura ou resignação. Interessante que o jovem músico decidiu pelo divórcio não lendo o maior libelo contra o casamento que conheço, também de Tolstói, Sonata Kreutzer, mas pelo Ivan Ilitch, que deve ser lido especialmente por juízes, homens do poder em geral e por todos aqueles que se perdem pelas ilusões de nossa sociedade: vaidade, prestígio, status e convenções medíocres para agradar os outros. Conteúdo é tudo.