Foto ilustrativa (Freepik) Há leitores de duas espécies: os que leem tudo de poucos mestres e os que leem o possível de vários. Leitores intensivos e extensivos. Borges, o maior de todos, dizia ter lido pouco romance, talvez só Balzac e Conrad. O gênio portenho era leitor apaixonado de contos e poesia em idiomas os mais disparatados: de fábulas budistas a mitos islandeses, passando pelo melhor de Virgilio e Ovídio. Não foi Borges, afinal, a dizer: “sempre imaginei que o paraíso fosse uma biblioteca”? Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Para mim, elas e seus jardins encantados: os sebos, as livrarias, o acervo de amigos. Tem ato de afeto maior que confiar sua biblioteca ao olhar curioso de outra ou outro leitor? Chegando aos 60 anos, faço percurso mental de quanto os livros tomaram meu tempo: o melhor tempo sempre. Recordo de um querido amigo, o imenso compositor Lívio Tragtenberg, sobre seu pai, o sociólogo Mauricio: “Quando não estava dormindo, e pouco, estava lendo”. E do epitáfio ideal para meu mestre Antonio Abujamra: “Aqui jaz um homem que não teve tempo de ler tudo”. Encontrar tempo para ler! Que façanha! Agora reler. Quanto preciso reler as grandes catedrais que são Proust e o velho Eça! Reler os que mais me acompanham, meus amigos íntimos, como Guimarães Rosa e Clarice, e retomar os que fizeram minha cabeça aos 15 anos: Wilde, Gide e Herman Hesse. Na literatura, sou onívoro: deglutir Faulkner com esmero, ruminar toda simbologia de Dante e descobrir novas iguarias, como Annie Ernaux, que conheci há pouco, ou o terrível pensador francês Michel Onfray. Os japoneses, que são sábios em tudo, dizem que 60 é a idade mágica. Sexagenários lá precisam compor um belo texto, em geral um poema. Nisso estou redimido: a poesia foi minha maneira de recolher o mundo em palavra para algum entendimento. Mas você, leitora e leitor de qualquer idade, busca Sêneca ainda que qualquer outro te espere. Foi ele ao lado de Krishnamurti que mais ajudaram vencer o dragão da ansiedade, mal de todos os séculos. “O homem que sofre antes do necessário, sofre mais que o necessário”. Isso basta mais que todos tratados de autoajuda furada. Com a idade, detenho mais em contistas e um alemão, Robert Walser, consegue criar mundos em narrativas de uma página. Como Manoel de Barros num poema contêm todas filosofias: “Minha independência tem algemas”. Chegar aqui página por página foi viver duplamente: vivi no que fiz e no que imaginei, intui, no que encantei. Confesso que li.