(FreePik) “Trabalhar sua mente fazendo aquilo que ama é a dica. Para desestressar nesses tempos de pandemia, nada melhor que buscar no baú das boas lembranças o que lhe dava prazer e que em função da vida agitada ficou esquecido”. Foi o que fez ou, o que pelo menos, pretendia fazer o oftalmologista João Bolzan Neto, responsável pelo Centro Cirúrgico Oftalmológico do Hospital Beneficência Portuguesa quando a pandemia da covid-19 bateu às nossas portas. Tudo muito novo e preocupante aumentando o estresse diário. De repente, o já saudoso Bolzan, para desacelerar os pensamentos e ações visando a nova realidade, voltou no tempo e se encontrou em 1968, aos 15 anos de idade, quando as preocupações do jovem adolescente eram outras. À época, inspirado por aquela que logo se tornaria a maior banda de rock de todos os tempos, os Beatles, juntou-se aos colegas do tradicional Liceu Eduardo Prado, na Capital paulista, para fundar uma banda. O tempo passou, a banda acabou, a Faculdade de Medicina chegou, uma nova banda foi criada, a formatura aconteceu, a nova banda acabou e os amigos se separaram. Um filme passou na mente do médico e ele lembrou que tinha uma guitarra... um violão. Os acordes voltam como num passe de mágica, Bolzan toca, esquece o estresse e faz planos para reencontrar os amigos e até tocar juntos num fim de semana, em uma garagem qualquer, como nos anos 60. Bolzan confidenciou tudo isso em uma entrevista e eu fiquei sem saber se ele reencontrou os amigos e se voltou a tocar, mas uma coisa é certa: ficará para sempre na minha memória e na de muitos aqui presentes seu semblante sereno que só deixava transparecer a eterna jovem alma de roqueiro quando o meio sorriso denunciava seu ar de rebeldia em relação aos padrões sociais mais comuns. Em contraste, sua satisfação se revelava no sorriso aberto após infinitos procedimentos em benefício dos incontáveis pacientes. É deste Bolzan que nos deixou no último dia 3 que guardarei as melhores lembranças, entre elas sua parceria no mutirão para reduzir a fila de espera de cadastrados no SUS para cirurgia de catarata. Ele estará para sempre na história de vida da Sociedade Portuguesa de Beneficência e o Yesterday, de Paul McCartney, assim como Bolzan, nunca passará. *Ademir Pestana. Presidente da Sociedade Portuguesa de Beneficência