[[legacy_image_271491]] Estou velho e vejo frustradas as minhas expectativas de poder gozar os prazeres que havia imaginado para a minha velhice e que, agora, tristemente os vejo difíceis ou pior do que isso. Nasci pobre em uma família que vivia do trabalho de meus pais – ele datilógrafo (não existe mais a profissão) e professor de inglês e francês, dando aulas e quase nunca cobrando, ouvindo música e lendo obsessivamente em português e nas duas línguas em que era fluente. Minha mãe, Laudêmia, mistura de um português (João Miranda) e de uma oriunda da Calábria, Sammarco Argentaro (Clélia Lavínia Garritano), trabalhava no nosso lar, mas fazia doces e tricôs em troca de alguns réis, moeda da época, sempre em falta em nossa casa, cuja proprietária, Adelaide Jabbur, era paciente com os seguidos atrasos no pagamento. Embora vivêssemos como em uma corrida de obstáculos, éramos felizes porque ficávamos contentes com o que tínhamos. Então, não passava pela minha cabeça um pensamento de futuro, pois viver o presente já era difícil. Apesar disso e com muito sacrifício, recebi boa educação doméstica e escolar, no Externato Santa Rita, de Ziloca, e no Ginásio Santista, que foi a minha alma mater. Sempre estudando, o que fazia com prazer e dedicação, construí o necessário para sair da pobreza e atingir pouca coisa, mas muito além do jamais pensado. Nem por isso subi em uma folha de papel e tive vertigem de altura, pois não me esqueci e não me esqueço das minhas origens e da ajuda que recebi de meu tio, Arnaldo Frangetto, cartorário e mestre-maçom, que vivia segundo as regras da Arte Real, do Vicente J. Tavares, pai do meu irmão por afeto, Nelson de Sousa Tavares, que até alimentos nos doou quando da séria enfermidade sofrida por minha mãe e que a tornou semi-inválida para o resto da vida, do sr. Benedicto Leal, homem bom que me deu o meu primeiro emprego no Cartório do Registro de Imóveis da 3ª Circunscrição de Santos, em que detinha o cargo de oficial-maior, e que facilitou a minha vida para que eu estudasse. O titular era, então, José de Sousa Dantas, homem ilustre, culto, bom e caridoso, que me comprou livros jurídicos, em francês, quando entrei na faculdade e ele descobriu que eu era hábil naquela língua, hoje quase secreta. Fez-me ler e selecionar as cartas de amor e as recebidas como cônsul. Fui beneficiário de uma solidariedade que não sei se ainda existe. A Vila Belmiro era uma entidade com caráter próprio em que as pessoas se ajudavam e se protegiam. A nossa capacidade de retribuição era pequena, mas não impediu que minha mãe presenteasse com um bolo os meus amigos em seus aniversários. Apelidaram-me “professorzinho” porque ensinava aos que pediam ajuda os conhecimentos que meu pai me doava. Fui moleque de rua, quase perdendo a ponta do dedão do pé ao chutar a guia da calçada, pois era na rua onde jogávamos. Eu só corria, com os meus dois pés esquerdos; era ruim demais. Tempus fugit e aquele tempo passou, mas ficou na minha memória como a ideia de felicidade.