[[legacy_image_299239]] Vivemos momentos dramáticos no que diz respeito à leitura no Brasil, em especial no que envolve a habilidade de interpretar de forma crítica um texto, articular ideias e captar informações lidas. Somos campeões em horas perdidas em tarefas fúteis no celular e num crescente comportamento frívolo diante da vida, turbinado pelo bombardeio de platitudes vulgares. Por que o brasileiro não lê? Por que não temos políticas públicas para a leitura? Por que as escolas em todos níveis estão dissociadas da literatura? Não espere que a tecnologia nos substitua como pensantes, porque nesse mundo já seremos dispensados de tudo mais que se reconheça humano. Numa avaliação feita pelo Progress in International Reading Literacy Study, o Brasil teve posição vergonhosa em ranking e ficou atrás do Uzbequistão e Azerbaijão em leitura e entendimento de texto. Portugal e Inglaterra, em ótima posição, se destacam por programas vigorosos de leitura desde o maternal (conexão de sons com letras e sílabas) até os cursos complementares de escrita nas universidades. O que está em jogo nem é qualificação profissional, mas a sobrevivência do idioma, da linguagem em vias de uma sociedade ágrafa substituída por balbucios, likes e curtidas. Para não nos desesperarmos, destaco projetos alvissareiros de nosso Litoral. Uma iniciativa da Prefeitura de Praia Grande denominada Página a Página está envolvendo 47 mil alunos da rede pública no fomento e na disseminação da leitura. Guarujá segue mesmo caminho de integração lúdica e cognitiva que só a capacidade socioemocional de inserção da leitura tem poder de forjar. Destaco a qualidade das redações do Câmera Educação, da TV Tribuna, onde vislumbramos grandes profissionais, cidadãos e futuros escritores, por que não? É o que essa empreitada comovente efetua. O que tem alentado minha fé na virada de jogo do analfabetismo funcional rumo ao letramento integral é o Leia Santos, iniciativa da Secretaria de Cultura de Santos nos tempos do amigo Carlos Pinto, em 2006, sob a curadoria do poeta Valdir Alvarenga. Agora, o projeto é incrementado pelo entusiasmo do querido intelectual Rodrigo Luchetta, que tem levado a todos rincões da Cidade uma biblioteca rebocável que já distribuiu 230 mil títulos gratuitamente, numa verdadeira ciranda de renda literária. O círculo virtuoso começa ao recolher livros em bairros nobres e distribui-los, principalmente para a população socialmente vulnerável, indo dos cortiços do Mercado Municipal até a Zona Noroeste e aos morros. Simples assim! Livros que seriam descartados são transferidos com critério numa política orgânica onde se transfere saber, a autoestima é promovida e a roda do conhecimento acaba vibrando. O primeiro secretário de Cultura do Brasil foi um gênio da raça: o escritor Mário de Andrade. Como primeira iniciativa, ele criou um ônibus móvel, agora eternizado em molde mais dinâmico em Santos. Livros para moradores de rua que transcendem percalços do desalento até esposas de presidiários que enviam obras que possam ajudar na superação são depoimentos tocantes da potência salvadora da leitura. Espero que a Prefeitura de Santos fortaleça ainda mais a capilaridade onipresente do Leia Santos, em todas as praças, interativo com outras artes, levando livros que serão janelas de aprimoramento e instrumentos de interação. Leia, Santos!