(Pixabay) A obviedade do título intriga pela sua redundância. Mas, a simplicidade do mesmo se justifica, pois todos enfrentam barreiras intransponíveis ao ter que realizar tarefas corriqueiras. Inevitavelmente, nesses momentos nos invade uma assombrosa escuridão e assume uma enorme confusão mental que trava todas as possibilidades de organizar os pensamentos. Acompanhe uma singela história. Poucos sabem que há rigorosa exigência para ser docente nas universidades de prestígio, onde é exigido o título de doutor. Para tanto, se deve cursar disciplinas e elaborar tese inédita, que requer a definição de um tema e a elaboração de um plano de pesquisa e bibliografia, com a indicação de uma hipótese, a ser comprovada. Mas, aí surge um impasse absolutamente ameaçador: como mergulhar no tema previamente organizado e que será a elaboração teórica que dará substâncias à tese? É comum que todos enfrentem um ‘branco’ total e, no meu caso, um amigo sugeriu que eu estruturasse as condições mentais e psíquicas primeiro, entregando-me Para Viver em Paz, um livrinho do monge budista vietnamita Thich Nhat Hanh. Ali achei a crônica “Lavando a louça por lavar”. Numa escura madrugada, insone, perdido e em absoluto desespero pensei: “Como um monge trata de coisa tão óbvia e insignificante? Deveria falar unicamente de coisas espiritualmente avançadas!” E tinha mais textos, como “Fazendo as pazes com um gomo de tangerina”, “O despertar na aldeia das Ameixas” etc. Como assim? Mas, na crônica citada, o mestre aconselhava: “... enquanto se lava a louça, deve-se somente lavar a louça, o que quer dizer: enquanto se está lavando a louça, deve-se estar totalmente cônscio do fato de que se está lavando louça... acompanhando cada respiração, sentindo minha presença, observando meus pensamentos e ações”. Ao entender isso, vi que achara o fio da meada do processo para a construção da tese de doutorado! Ficou muito claro naquela madrugada fria que era só ir escrevendo peça por peça, raciocínio por raciocínio etc. Sem pressa ou angústias, como faria se tivesse que lavar uma montanha de pratos e panelas... Simples, assim! Bingo! Nunca mais me esqueci desse princípio. Graças a Thich Nhat Hanh, que há muitas décadas mantém o Plum Village, um retiro espiritual perto de Paris. Aliás, vale assistir ao documentário Caminha Comigo (na Netflix). Ou ler um de seus muitos livros. Que ser evoluído! Gratidão grande monge! Infelizmente, faleceu em 2022. *S. Squirra. Jornalista, ex-docente da ECA/USP e escritor