(Carlos Nogueira/Arquivo AT) Eu ainda era repórter, recém-chegada a A Tribuna, quando me pautaram para entrevistar um personagem peculiar de Santos, que dividia seu tempo entre as atividades de despachante aduaneiro e um hobby bem particular e rico de histórias: colecionar cartões-postais. Não é um hobby inédito, mas eu jamais poderia imaginar a quantidade de armários e gavetas que Laire mantinha em seu escritório apenas com as peças raras da coleção, garimpadas minuciosamente entre amigos, em trocas feitas durante feiras nacionais e até internacionais. Laire me recebeu com a atenção e a educação que pautaram todos os momentos da nossa relação, desde aquele primeiro encontro até as conversas fortuitas mais recentes. A notícia de sua partida, na segunda-feira, me levou de volta àquela entrevista, não pela matéria que saiu dias depois, mas por algo que guardei durante décadas e que se tornou uma das memórias mais afetivas da minha trajetória como repórter. Enquanto conversávamos em seu escritório, meus olhos se fixaram menos nos cartões que ele me mostrava e mais no quadro pendurado atrás de sua cadeira. Nele, a imagem de um navio que me era profundamente familiar. Laire percebeu meu interesse: — O que de tão interessante tem nesse quadro? Respondi: — Esse é o navio que trouxe minha mãe de Portugal, nos anos 50. Ela tinha um cartão-postal que ganhou durante a viagem, mas que se perdeu em uma das nossas mudanças. Ele sorriu: — É o Vera Cruz. Trouxe milhares de portugueses desde os anos 40. Gosto tanto dessa história que transformei um cartão-postal em quadro. Falamos ainda um pouco sobre o navio, nos despedimos, e eu voltei à redação. A surpresa veio dias depois. Encontrei sobre o teclado do meu computador um envelope grande, endereçado a mim. Não havia remetente. Na portaria, disseram que ‘alguém’ o havia deixado. Abri com cuidado e lá estava: um cartão-postal original do Vera Cruz, acomodado com capricho em um porta-retrato azul. Junto, um bilhete: “Dona Maria Rosa, receba este mimo de alguém que preserva a imagem dos navios que fizeram história no Porto de Santos. Um abraço do Laire.” Não há palavra que descreva a minha emoção. Laire retirou de sua própria coleção um cartão-postal para presentear uma senhora que ele nem conhecia, mas sabia que faria feliz. Tempos depois, me garantiu que tinha dois iguais no acervo. Será? Tão impactada quanto eu ficou minha mãe quando entreguei o presente, no domingo seguinte. Vi em seus olhos a emoção de resgatar uma imagem que talvez já começasse a se apagar da memória. O porta-retrato voltou para a estante da sala, em lugar nobre e iluminado e ela me pediu para agradecer. Sempre dizia que um dia o faria pessoalmente. Mãe, chegou o dia de agradecer ao Laire pelo presente. *Arminda Augusto. Jornalista