[[legacy_image_357053]] Nos cursos de Engenharia Civil, aprendemos que há solução para quase tudo, desde que haja recursos humanos e financeiros para implantá-la. Mas é importante salientar que raramente qualquer solução pode ser considerada definitiva. Uma das recomendações frequentes na formação de engenheiros civis e afins é de evitar construir em encostas e fundos de vales. A recomendação para evitar ocupar áreas de fundo de vale advém do fato de que elas são inundáveis, por serem o caminho natural das águas que escoam superficialmente, inclusive das encostas de morros, configurando rios e seus afluentes. No caso de encostas, a própria força da gravidade já engendra movimentação do solo. Quando este está encharcado em função de chuvas intensas e duradouras, o movimento é ainda mais potencializado. Mas evitar não quer dizer proibir! As obras contra inundações e deslizamentos são custosas, sujeitas à burocracia estatal e a demorados licenciamentos ambientais. Além disso, no entender nefasto de alguns políticos, elas têm pouca “visibilidade”. Ao contrário do que alguém possa acreditar, a falta de recursos financeiros não se resolve com “canetadas” ou proselitismo. Mas um amigo me disse, certa vez, que o custo do “não fazer” é muito maior do que o custo de “fazer”. E o que tem que ser feito deve ocorrer de forma contínua, que transcenda mandatos, ou seja, disputas político-partidárias e vaidades. A prevenção ocorre por meio de legislação urbanística, que define usos e ocupações de áreas por meio do zoneamento; e pela execução de obras que devem ser projetadas segundo parâmetros bem definidos em normas técnicas e levantamentos de campo, executadas com exatidão e esmero, sendo submetidas a constante manutenção, sobretudo no que se refere a sistemas de macro e microdrenagem. Os projetos também estimam a vida útil da obra, o que não quer dizer que, atingido esse limite, a obra entrará em colapso. Nesse caso, vida útil tem a ver com o custo de manutenção, que tende a aumentar com o tempo. Em algum momento, novas obras serão necessárias. O adensamento urbano sem controle, ao ocupar áreas inundáveis, potencializa danos materiais e humanos, que vão de doenças a óbitos. No caso de encostas, podem ocorrer deslizamentos e desmoronamentos de edificações, com as mesmas consequências fatais. As catástrofes de Angra dos Reis, Guarujá, São Sebastião e agora, de forma ainda mais dramática, no Rio Grande do Sul são alguns exemplos emblemáticos. Enquanto isso, os problemas persistem; danos ao patrimônio público e privado continuam e vidas são perdidas. O drama atualmente vivido pelo Rio Grande do Sul tem despertado, mais uma vez, a solidariedade e apoio da população brasileira. A estupefação e o inconformismo também estão presentes. A natureza tem sua parcela de imprevisibilidade nesses eventos, seus extremos. Mas isso não é desculpa para a inação inconsequente de quem tem o poder de decisão. O bom tempo faz com que esqueçam? Não conseguem distinguir lágrimas de gotas de chuva? A única certeza é que não são as lágrimas que fazem as enchentes.