(Reprodução) Imagine um indivíduo processado, julgado e condenado sem nenhuma culpa ou alguém que acorda sabendo-se um inseto? Franz Kafka parecia prever com exatidão um mundo em desencanto, sem saída para o cidadão diante de tantos mecanismos de opressão, invasão de privacidade e estranhamento, como essa nossa distopia. Distopia? Sim, ausência de portas de emergência evidentes, o contrário do porvir, o oposto de utopia. Não me imagino antes de um “ser literário”, alguém que espreita todos os meandros da vida pelo ponto de vista da estória, dos significados mais profundos, das sutilezas, e Kafka reina soberano no meu panteão de alegorias. Em Oscar Wilde, meu coração; o cérebro todo é Kafka. Foi de Kafka meu primeiro livro adulto, A Metamorfose. Na verdade, essa arbitrariedade de livro adulto e infantojuvenil é questionável. Devemos ler Alice no País das Maravilhas em qualquer idade, bem como A ilha do Tesouro, de Stevenson. E o primeiro Kafka a gente nunca esquece. Em que momento nos sentimos tão reduzidos “a um número, um mero algoritmo nesta iminência da substituição de nossa sacrossanta criatividade por uma ameaçadora inteligência nada artificial”? Com que perícia na forma e conteúdos o franzino judeu tcheco que escrevia em alemão antecipou o horror nazista, as engrenagens de tortura, a barbárie tecnológica e o aparato burocrático de câmeras onipresentes, códigos de barras e os interesses corporativos! Contos curtos, novelas, os romances, as cartas, percorro-os, com um preferido: o dilacerante conto alongado ou novela O Veredicto. Kafka compõe com Proust, Joyce e Jorge Luis Borges o quarteto de catedrais literárias do século 20. Em Proust, o preciosismo psicológico, em Joyce o deleite experimental, em Borges o fantasioso supremo, mas em Kafka o futuro na ausência própria do sentido de futuro em nossos tempos. Kafka é como um petardo ou bomba de efeito retardado a anunciar profecias autorrealizáveis. Devemos ser parcimoniosos com o conceito de gênio. Gênio é ocorrência em milhões e alguns se tornam verbetes, se ‘dicionarizam’, forjam adjetivos. Kafkiano: o que é então? Uma atmosfera, situação ou sensação opressora sem justificativa evidente ou equívoco labiríntico e ameaçador. Quer mais para nomear nosso tempo de kafkiano? Kafka de vida curta morto tuberculoso, de amores turbulentos, sob a égide de um pai tirânico, reunia os amigos para ler suas obras ‘às gargalhadas’, pasmem! Um deles deve ser considerado benfeitor da humanidade, Max Brod. Imaginem que nosso Franz exigiu que o irmão de alma e testamenteiro destruísse todos seus manuscritos. Brod não só contrariou seu último desejo como se tornou o propagador de seu verdadeiro evangelho literário, alerta para as violências invisíveis num cotidiano de indiferença, ressentimentos e alienação diante do poder, do marketing, do dinheiro, do consumo, das urdiduras sutis de desumanização. Leiam Kafka, reconheçam nele nossa condição de joguetes indefesos entre demandas que nos escolhem, aparatos que não nos representam, instituições de fachada para outros grandes interesses fantasmagóricos de big techs, cyberbullings, bournouts, estresse ambiental. Como dizem os argentinos sobre Gardel, Kafka nunca escreveu tão bem quanto hoje, 100 anos depois de sua partida. *Flávio Viegas Amoreira. Escritor e membro da Academia Santista de Letras