() A Quaresma é um tempo de reflexão, que culmina com a Páscoa, momento mais importante da Semana Santa e, mais do que isso, de todo o cristianismo. Não fosse a ressurreição de Jesus Cristo, talvez a “boa nova” que o Novo Testamento nos deu não teria a mesma força, vitalidade e perenidade. Todos os eventos, de seu nascimento até a ressurreição, já haviam sido previstos no Antigo Testamento. A vinda do Messias era ansiosamente aguardada pelos judeus, como se ele fosse libertar Israel do jugo de Roma, devolvendo-lhe o esplendor dos tempos de Davi e Salomão. No entanto, Jesus propôs um outro tipo de revolução: a de ideias, pacífica, sem armas, até afirmando que era correto dar a César o que era de César e a Deus o que era de Deus. Mudanças de mentalidade têm muito mais força do que certas revoluções sangrentas, que só substituem a violência e a opressão por violência e opressão, às vezes ainda maiores. Prova disso é que o cristianismo findou por superar as repressões que sofreu em seu nascedouro, tornando-se religião hegemônica no Império Romano. Infelizmente, ele também passou a reprimir outras crenças ou divergências, criando cismas internos e desculpas para a perseguição de dissidentes e povos colonizados. No caso do catolicismo, não à toa a Igreja se reconhece como “santa e pecadora”, muito em função dos que falam e agem em nome dela, o que vale para qualquer outra religião. O problema sempre está nas intenções dos “intermediários”, e muitos vinculam a fé a eles, e não como algo efetivamente enraizado na alma de forma racional, pessoal. Onde entra Judas Iscariotes nesse contexto? O Sábado de Aleluia era marcado pela malhação de representações de Judas. Depois, os bonecos passaram a representar personalidades execradas pelo povo, numa espécie de “justiça com as próprias mãos”, reação ao tardar e falhar de quem deveria julgá-los e condená-los. Judas Iscariotes cometeu vários erros, é fato: ignorou as Escrituras e o alerta feito a ele por Jesus; traiu seu Mestre ao identificá-lo com um beijo aos que vieram prendê-lo, em troca de “trinta dinheiros”. Cristo já era bastante conhecido para precisar ser identificado. Por fim, corroído pela culpa, Judas se suicidou, ato considerado gravíssimo no judaísmo. Assim sendo, Judas cumpriu as Escrituras, já que Jesus não o alertou sobre a possibilidade da traição, mas que ela efetivamente aconteceria. Judas não foi responsável pela condenação de Jesus. Isso ficou a cargo da multidão que escolheu o revolucionário Barrabás para ser libertado. Ainda hoje, há quem prefira revoluções violentas do que a conscientização por valores que transformam mentes pela coerência, e não pela doutrinação maliciosa ou forçada. Judas foi parte da consumação de um processo inexorável. Caso ele não tivesse feito o que fez, talvez o cristianismo tivesse outro rumo. Não havia um plano B. Por isso, Judas Iscariotes merece uma forma menos cruel de análise, pois foi um meio que justificou um fim, instrumento de algo que mudou radicalmente a história da humanidade. *Adilson Luiz Gonçalves. Escritor, engenheiro, pesquisador universitário e membro da Academia Santista de Letras