(Marcello Casal Jr/Agência Brasil) Mentiu. Sabia que se fosse sincero não realizaria o grande sonho jornalístico de cobrir a área diplomática. Antes de lhe confiar a tarefa, seu chefe em Brasília perguntou: “Você fala inglês?” Resposta: “Falo, e muito bem”. Esse idioma, língua universal, certamente seria ferramenta indispensável em uma cidade com 80 embaixadas estrangeiras. O problema é que mentira tem perna curta. Tão curta que um mês depois Guilherme se veria confrontado com a verdade. Venezuela e Guiana viviam nova crise política e militar, por conta de velhas rivalidades. E ele seria enviado à antiga Guiana inglesa. Sem falar inglês, estaria perdido. Pensou em contornar a farsa com uma providência prática: contratar um intérprete. Pago pelo seu bolso, naturalmente. Mas a sorte dessa vez conspirou a seu favor. A Guiana proibia a entrada de jornalistas estrangeiros. A alternativa seria ir a Caracas, ouvir a versão da Venezuela. Estava salvo. Sua avó Florinda, espanhola, o educara na língua de Cervantes. Seu bom castelhano lhe permitia falar fluentemente com integrantes do governo venezuelano. Além disso, o embaixador dos Estados Unidos, país que tentava mediar o conflito, era seu conhecido desde que atuara em Brasília. James Rivera, além do espanhol, falava um português perfeito. Ao atender o telefonema, o diplomata foi gentilíssimo, como sempre. Mas havia em sua voz um indisfarçável toque de grande preocupação. “Guilherme, estou ameaçado de morte pelos guerrilheiros. Estaremos mais seguros em um restaurante do que na fortaleza que é a embaixada americana”. Não entendeu a lógica do raciocínio, mas preferiu não contestar. Instalados em um restaurante luxuoso, o embaixador não tirava os olhos de três portas junto à calçada. Sua atitude era de claro pavor. Mas entre uma baforada e outra de seu charuto cubano ia desfilando informações completas. Expôs, com muitos pormenores, a posição venezuelana. E a da Guiana. Concordou que tudo fosse publicado desde que não atribuído a ele. Até o número exato de soldados e médicos cubanos na Guiana. Sorrindo, em meio à preocupação que o inquietava, pediu: “Mude um pouco os números. Eles são indiscutíveis. Levantados pela Cia, nosso serviço de inteligência”. Quando o almoço terminou e o repórter fez menção de acompanhá-lo até à saída, Rivera estendeu o braço para impedi-lo. “Apesar dos cuidados, com meus seguranças gigantes lá fora, se houver uma vítima é justo que seja eu, não você”. Guilherme voltou à mesa para saborear um pudim de leite e o café. Mal sentou, ouviu tiros e um grande alarido lá fora. A exemplo dos garçons, correu para uma das entradas do restaurante. Assustado e triste, viu quatro carros cercando a limusine blindada da embaixada americana. Homens mascarados gritavam. Dois deles mataram os seguranças de Rivera. Outro arrancou o diplomata do carro e o golpeou brutalmente na cabeça. Ele caiu na rua, mergulhado em um mar de sangue. *Jornalista