(Imagem ilustrativa/Pexels) Estava lá! Escondido entre anúncios, tentativas de pishing e outros lixos. Estava lá! No lixo eletrônico do meu e-mail. Começava ali uma semana e meia de tensão, dúvidas e revolta. O susto teve início quando, no primeiro semestre deste ano, recebi um zap de corretor de seguros de saúde afirmando: “Como você sabe, seu plano médico será descontinuado a partir do fim do mês”. Como, eu sei?! Não sei de nada, não! Deve ser algum engano ou uma tentativa de fraude eletrônica. Fui ver meus e-mails recebidos. Nada! Não havia nenhum sobre o assunto. Estaria na pasta de lixo eletrônico? Um e-mail tão importante teria sido enviado para lá? Fui tirar a dúvida. Estava lá, entre publicidades inúteis. Trazia a informação de que meu plano seria cancelado no último dia do mês. A operadora havia simplesmente decidido extinguir o meu e outros planos semelhantes. Como assim? Pagamento em dia, nenhum comunicado por escrito, nenhum telefonema. Um simples e-mail! Que ainda tinha ido parar no lixo eletrônico, o que me deixaria totalmente desinformada sobre a situação, não fosse o WhatsApp do corretor! Para completar, tinha menos de trinta dias para contratar outro plano de saúde! Mesmo não estando próximo o meu aniversário, era o começo, para mim, do que muitos chamam de inferno astral: sucessão de contatos e telefonemas com corretores, administradora e operadora. Às voltas com documentos para evitar carências na migração para outros planos, descobri que não era tão fácil assim conseguir um novo plano semelhante ao meu. Preços elevados, telefonemas intermináveis, informações desencontradas – a maioria fornecida com alguma empatia pelos atendentes – e meu equilíbrio emocional sendo bombardeado. À medida em que perdia o sono, aumentava minha revolta. Como podem existir leis que permitam que o lucro se sobreponha à saúde? Descobri que o meu plano havia sido extinto porque não interessava mais financeiramente à operadora. E os políticos que ajudei a eleger? Só estão mesmo preocupados com a política partidária e o povo é apenas um detalhe? Como autoridades e administradores têm o poder de determinar que tudo seja feito via internet e que todos precisemos estar permanentemente ligados a essa deusa para sobreviver na era da inteligência artificial? Onde foi parar nossa humanidade? Não se pensa na aflição de quem tem seus direitos desrespeitados porque leis mal feitas ou permeadas de segundas intenções são aprovadas. Não se leva em consideração que muitos nem acesso têm à web. Que os menos esclarecidos e os idosos encontram dificuldades intransponíveis em lidar com ela. Então, como se pode determinar que comunicados e atividades importantes sejam feitos somente por meio dela? Quando finalmente obtive uma solução mais ou menos satisfatória para o meu problema, soube que muitos, em situação análoga à minha, preparavam-se para entrar com ações na Justiça, pedindo ressarcimento financeiro em virtude do abalo emocional e de alterações na saúde. Algumas semanas depois, a mídia noticiou que parlamentares haviam pedido explicações e exigido providências de operadoras que tinham agido da forma abrupta e unilateral. Soube até que instâncias superiores de Justiça haviam sido acionadas para resolver a situação e reativar os planos cancelados. Estou aguardando até hoje! Até escrevi esta crônica para o Concurso Contemporânea 2024. Perdi o plano, mas entrei no concurso! Só que não consigo deixar de me perguntar: “Que País é este?” E a resposta é imediata: “Um País que poderia ser muito melhor se o povo realmente importasse”.