(Reprodução) Fui audacioso: peguei emprestado o nome do clássico filme do eternizado diretor Alfred Hitchcock, Janela Indiscreta, lançado em 1954. A narrativa consiste, basicamente, na curiosidade e na incessante observação. O fotógrafo, interpretado pelo icônico James Stewart, encontra-se confinado em seu apartamento. Não sou James Stewart, mas faço minhas observações através da minha própria janela indiscreta, que me proporciona a beleza única da cidade de Santos e a imensidão do mar. Diferentemente do que ocorre no filme, não há suspeitos nem policiais invadindo os prédios vizinhos. Ainda assim, há algo que insiste em prender o meu olhar. Ao despertar às 6 horas, ouvindo o som distante da buzina de um navio, logo estico o esqueleto. Os primeiros passos me guiam até a janela. Paraliso o corpo inteiro, transbordo gratidão aos céus e encanto-me com a natureza daquele sábado ensolarado. Meus olhos, posicionados no nono andar, miram a avenida. Os atletas de fim de semana estão a todo vapor. Observando corridas e pedaladas, até me empolgo a me mexer, mas logo desisto quando percebo que o calçadão já está tomado. A rede do futevôlei já está instalada. A galera vai chegando: alguns amarram bicicletas, outros estacionam motos elétricas, enquanto alguns se aproximam correndo, com os pés queimando na areia aquecida pelo sol. Mais uma partida vai se iniciar; quem sabe eu acompanhe tudo de camarote. Gosto de observar aqueles que, todos os finais de semana, se encontram ao lado do farol de sinalização marítima da Avenida Coronel Joaquim Montenegro. A turma é eclética, mas todos têm o mesmo objetivo. Há grupos da canoa havaiana, do surfe e do caiaque. Quem sabe um dia eu dê folga à minha poltrona, desça até a faixa de areia e me apresente àquelas pessoas. Algo, porém, intriga-me constantemente. Aos domingos acontece a tradicional feira de rua em meu querido bairro. Quando me dá vontade de desfrutar de um pastel de carne acompanhado de caldo de cana, dirijo-me até a barraca da japonesa. Sentado à mesa, folheando o jornal, interrompo a leitura e observo um senhor de aproximadamente 70 anos, debruçado na janela do edifício vizinho. Com um cacho de bananas apoiado no parapeito, ele empunhava um pincel e limpava cuidadosamente as frutas. Em seguida, repousava o cacho ao sol por alguns instantes. Fiquei curioso para lhe perguntar qual seria aquele ritual. Quem sabe eu aprenda uma nova técnica antibacteriana. Guardarei a oportunidade de desfazer essa curiosidade encontrando-o em alguma andança pelo bairro. Talvez, em qualquer domingo desses, possamos nos encontrar na pastelaria da japonesa. Sergio Rezende Peres. Tecnólogo e cronista