(Reprodução) Noel Rosa compôs, em 1936, a música Não Tem Tradução, que começa culpando o cinema falado por afetar o vocabulário pátrio; entremeava com “essa gente hoje em dia que tem a mania da exibição / Não entende que o samba não tem tradução no idioma francês” e terminava com “amor lá no morro é amor pra chuchu! / As rimas do samba não são I love you. / E esse negócio de hello, hello boy e hello Johnny / só pode ser conversa de telefone”. O latim já foi o principal idioma nas relações internacionais, seguido do francês e, atualmente, do inglês. Obviamente, essa prominência decorreu da dominação territorial e econômica da potência da vez, concorrentes ou hegemônicas. No mundo globalizado, onde o Brasil está sempre correndo atrás da “cenoura”, a influência do idioma inglês em vários setores é notória, mas não é só aqui. Também é fato que a ciência e a tecnologia, majoritariamente produzidas em países desenvolvidos, são pródigas em criação de novas palavras e expressões, nem sempre traduzíveis. Até os orgulhosos franceses estão se rendendo a termos em inglês, por questões comerciais, científicas e tecnológicas. Isso é ótimo para os anglófonos, o que me faz admirar os que buscam aprender outros idiomas, em vez de desprezarem e desdenharem de quem não fala inglês. Enfim, embora concorde que há tradução para as palavras em inglês, o fato do comércio exterior e a influência das grandes corporações internacionais dominarem o mundo nos faz ter que conviver e, na medida do possível, tirar proveito disso, que seja ao menos cultural, desde que sem a “mania de exibição” mencionada por Noel. O próprio Noel fez um contraponto entre o dinamismo de nossa língua e as influências culturais importadas: “A gíria que o nosso morro criou, / bem cedo a cidade aceitou e usou. / Mais tarde o malandro deixou de sambar, dando pinote, / e só querendo dançar o foxtrote”. É diferente hoje, com o country, rap, “hip-hop e funk? Bem, o rock também entra nessa lista. O problema está no que é bom, ruim ou péssimo, o que depende do gosto de quem não está submisso à massificação. Nossa língua é um patrimônio cultural e deveria ser tratada com um pouco mais de carinho, sem as subversões e violências a que vem sendo submetida, por questões ideológicas ou simplificações deletérias. Ariano Suassuna, de quem sou grande admirador, considerava a língua portuguesa a mais linda do mundo. É certo que Carlos Drummond de Andrade gostava de neologismos. No Ginásio, éramos incentivados a inventar palavras com definições plausíveis, mas “devagar com o andor, que o santo é de barro”, e o português não merece a iconoclastia praticada por alguns grupos, atualmente. Aliás, derradeiramente parafraseando Noel, corroborado por alguns linguistas e filólogos, nosso idioma é o “brasileiro, já passou de português”. *Adilson Luiz Gonçalves. Escritor, engenheiro, pesquisador universitário e membro da Academia Santista de Letras