(Freepik) Foi-se o tempo em que havia uma busca de objetivos comuns e cada conquista era saboreada com efusividade. Não existia o pensamento único, até porque isso não é saudável na democracia e em tudo o mais nessa vida. Boa parte das pessoas vai lembrar daquela célebre frase do dramaturgo Nelson Rodrigues, de que “toda unanimidade é burra”. O seu argumento de que o consenso absoluto sufoca o pensamento crítico e a inovação, e que, quando todos concordam, ninguém está pensando realmente, tornando o contraditório essencial para o debate saudável e o progresso, é tão presente que me veio à lembrança para falar da polarização política. Mas nada acontece por acaso. A sociedade acompanhava a evolução do mundo e em especial aqui em nosso território brasileiro, com envolvimento gradual nas causas presentes. Só que um dia houve alguém, que lidera hoje um dos polos, a despertar o “nós contra eles”, lá nos idos de 1998 com o “fora FHC”. Historicamente isso vem desde o século 18, com o Iluminismo, o conflito entre os pensadores iluministas (“homens de espírito”, “honnêtes hommes”) em combate contra os “fanáticos”, os privilegiados e o “obscurantismo” da Igreja e do Absolutismo (“demônios das trevas”). Sempre me perguntam se há uma equação para resolver isso, com uma terceira via, por exemplo. A história já exibiu fatos possíveis e parece faltar capacidade das lideranças políticas construírem a tempo uma alternativa real para o dia 4 de outubro, nas próximas eleições. Nos partidos políticos, há a relevância de cumprir esse papel, porque na democracia eles são peças-chave, mesmo que os rejeite. O eleitorado adere à polarização, mesmo contestando-a, sem tempo de se mobilizar em busca de alternativas. Vota-se no menos ruim e não calculam as consequências da importância desse voto nos próximos anos. E é justamente esse comportamento que paralisa os movimentos de apresentação de outras ideias, equilibradas, para diminuir conflitos e gerar uma retomada da caminhada comum, em busca de um mundo melhor para todos. Alguém ou “alguéns” precisam pegar esse bastão. Vale a retórica do futebol como ferramenta didática e popular para explicar a complexa conjuntura política brasileira, transformando abstratos jogos de poder em narrativas compreensíveis, paixões e rivalidades. Assim, não é possível concordar com esse Fla-Flu, quando há torcedores do Santos, Palmeiras, Mirassol etc. Não deixe aos políticos a exclusividade das tarefas da política. Façamos a nossa parte, voto é coisa séria. *Raul Christiano. Jornalista, escritor e membro da Academia Santista de Letras