Inusitado, de verdade, deve ser o texto, a forma como o escritor conta um fato que para o leitor pode ser banal (Reprodução/Pixabay) É o que pensa o escritor cronista diante de alguma coisa que lhe chame a atenção. Um fato inusitado ou algo que provoque alguma estranheza. Inusitado, de verdade, deve ser o texto, a forma como o escritor conta um fato que para o leitor pode ser banal. Muitos escritores escreveram sobre o ato de escrever. Não é esse meu caso; não neste momento. A expressão que dá título a esta crônica é que me interessa, pois é muito comum entre os escribas mais afeitos a este gênero literário. Uma topada, um aspirador de pó ligado na abertura de uma exposição de arte ou a lembrança de um amigo que assobia, hábito estranho nestes tempos estranhos, em que não se assobia mais. Tudo e mais alguma coisa basta para começar. E o faço ainda à caneta e papel, mas sempre acabo no teclado. A crônica brasileira ganhou forma ao longo do século 19. Antes de o rádio entrar pela sala e a televisão tomar-lhe o lugar de honra, reinava o jornal. E o jornal precisava encher páginas todos os dias. E o cinema, que começava, era para poucos. Sorte nossa. Apesar da grande maioria ser analfabeta de pai e mãe, àquela época, o Rio de Janeiro, então capital da República, já tinha quase 700 mil habitantes. Diariamente, circulavam dezenas de folhas e periódicos, embora meia dúzia de grandes jornais dominasse as ruas e as bancas. Estima-se que só o Jornal do Brasil vendesse 60 mil exemplares por dia. Era um tal de menino gritando “extra, extra!” nas ruas que se tropeçava neles. O que tanto se escrevia naquelas páginas? Notícias, por óbvio. Mas não só. No espaço dos famosos folhetins publicavam-se crônicas, críticas teatrais, comentários sobre costumes, variedade (leia-se fofoca) e, romances em capítulos. A mão e a luva de Machado de Assis e Memórias de Um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, são exemplos disso. Grandes escritores fizeram da imprensa e da crônica parte importante de sua obra, como Lima Barreto e João do Rio – este último sabia muito bem que qualquer coisa podia dar em crônica. Em Os Outros, de 1915, escreveu sobre as conversas alheias que ouvia pelas ruas. João do Rio fez o mesmo, à sua maneira, em Um Mendigo Original, de 1909. Depois vieram Carlos Heitor Cony, Nelson Rodrigues, Fernando Sabino, Rubem Braga e tantos outros. Braga acabaria se tornando um dos nomes centrais da crônica moderna brasileira. Entre os contemporâneos, Ruy Castro é um que mantém viva a tradição. No fundo, todos aprenderam a mesma coisa: o assunto está por aí. É preciso apenas olhar. E, como tudo, essa também deu crônica. *Marcio Aurelio Soares é médico e escritor