(Imagem ilustrativa/Gerada por IA) Lá em casa, terça-feira é noite de cinema. Como nem sempre os horários das sessões são compatíveis com nossa rotina, fazemos nossa pipoca e ligamos a televisão. Temos feito grandes descobertas. A minissérie Orgulho e Preconceito, produção de 1995 baseada no romance clássico de Jane Austen, publicado em 1797, é um exemplo. Um roteiro impecável, para não falar das atuações magníficas de Colin Firth, como Mr. Darcy, e de Jennifer Ehle, na pele de Elizabeth Bennet. Imperdível. Este mês chegou ao streaming o filme Parque Lezama – Conversas no Parque, baseado na peça I’m Not Rappaport, escrita por Herb Gardner em 1985. Dirigido pelo argentino Juan José Campanella, o filme traz ainda uma grande atuação Luis Brandoni, uma das figuras mais marcantes do cinema latino-americano. I’m Not Rappaport nunca foi traduzida e publicada no Brasil (alô, editoras). A obra não é apenas sobre dois idosos conversando em um banco de praça, mas também uma celebração — e uma investigação — do próprio ato de narrar. No centro da trama está León, um fabulador. Suas histórias não são meras distrações; são uma necessidade vital, uma arma contra sua invisibilidade de idoso. Ao se passar por um advogado poderoso, um militante perigoso ou um cineasta renomado, ele reivindica seu lugar no mundo e obriga os outros a interagirem com ele. Antonio é o prático, o homem que lida com o mundo real. Ele passa boa parte da trama reclamando das “invencionices” do amigo. Sua resistência representa a postura racional e pragmática que despreza a fantasia como fútil ou enganosa. Depois de tanto protestar, acontece algo curioso: Antonio escolhe acreditar na mentira. Ao rejeitar a verdade exposta por León e abraçar o prazer da fantasia, diz: “A verdade sobre você não me interessa mais. A história que você inventa é melhor — e é essa que eu quero ouvir”. Este é um ato de amor e de cumplicidade. Ele reconhece que a amizade entre eles não se sustenta na frieza dos fatos, mas no calor das narrativas compartilhadas. Umberto Eco é a chave de ouro para entender tudo. Eco dizia que o ser humano, desde tempos imemoriais, reúne-se em torno da fogueira movido pela necessidade de criar e ouvir histórias. O banco da praça é a nova fogueira. No cinema, como na vida, contar e ouvir histórias não é um simples passatempo, mas um mecanismo de sobrevivência psicológica e um ritual de afeto. A ficção não é o oposto da verdade; é uma verdade paralela e necessária, que nos ajuda a suportar o peso do real e a nos conectar uns com os outros. Não à toa dizemos que quem conta um conto aumenta um ponto. *Marcio Aurelio Soares. Médico