(Imagem Ilustrativa/Unsplash) Não havia mais a paz naquela cidade. Ruas escurecidas pela fumaça dos bombardeios. O medo estampava os rostos das pessoas que corriam sem saber para onde ir. Quem poderia culpá-las? A guerra não escolhe vítimas; faz a todos reféns. A fome, a sede, a angustia eram companhias constantes do velho pescador. Recordava que o mar era sua única preocupação em dias tranquilos. Agora tudo parecia distante. Sua neta questionava se um dia isso iria acabar, mas ele não tinha resposta, havia somente o barulho das explosões, as sirenes e os sons das botas dos soldados sobre o asfalto. Tudo era pesadelo sem fim. Mercados vazios, o pão se tornara luxo e a água potável, um sonho distante. Algumas crianças ousavam sair, brincavam de guerra, imitavam os soldados, brincadeiras inocentes, tingidas pela realidade brutal em que viviam. Livros, fontes de conhecimento e escape, viraram lenha, combustível para aquecer as noites frias. As pessoas já não liam mais; vivam uma narrativa forçada, sem enredo e sem esperança de um final feliz. Hospitais lotados, médicos exaustos por vidas penduradas a um fio e a cada dia mais feridos com suas histórias, famílias separadas, desejos interrompidos. A guerra não perdoa. Não há vencedores. Apenas algumas cicatrizes de sobreviventes, visíveis ou invisíveis, que tentavam continuar a sua sina. Líderes religiosos não tinham respostas. Orações ecoavam em um vazio sem fim, mas diziam que a fé era a única arma que restava. Há que se acreditar. Uma jovem mãe encantava consolar seus filhos contando um passado que eles não viveram e um futuro que provavelmente não viverão, mas ela desejava desesperadamente rever os campos floridos, escutar os risos de felicidade, as festas em família, como num conto de fadas. As crianças escutavam e arregalavam os olhos. Acreditavam, pois essa era a única verdade que conheciam. Na guerra existem intermitências sem lógica, ciclos de dores e breve alívio. Quando há pausa, há promessa, também, de uma próxima explosão, e uma chance de fuga, de se refugiar no paraíso. Assim pensa a humanidade, que resiste em pequenos gestos, em silêncios compartilhados, lágrimas contidas. A guerra não é apenas tiros e bombas, é ausência do cotidiano, a falta de abraço, da conversa entre amigos e familiares, o lar desfeito, a cidade destruída, a saudade de um tempo que talvez nunca mais volte. Então, o ser humano resiste à sua maneira, mesmo que sua bandeira e sua pátria estejam em ruínas. Crê na esperança, em voltar e reconstruir aquilo desfeito, pelo irracional homem, um fio de vida que insiste em não se apagar. Jardel Pacheco é escritor, ativista cultural e diretor de Relações Públicas da Contemporânea - Projetos Culturais