(Adobe Stock) A soberba é o traço humano mais representativo da pequenez do espírito. É a catarata que deixa a alma opaca. Não me atrevo a explicar como tal traço aflora nas pessoas arrogantes (que não são poucas) com as quais nos deparamos durante a vida. Em muitos casos, a catarata da alma se apresenta como mecanismo de autoproteção para os que são emocionalmente fragmentados. Nos arrogantes, há a crença neles mesmos como detentores de exclusivo merecimento. Para essas “pessoas especiais”, até o eventual esforço consciente do exercício da humildade é sabotado. Ao participar de reunião de colegiado em início de mandato, testemunhei um dos membros, após breve apresentação de currículo (para ele – e somente para ele – superior aos demais), alertar os presentes: “Mas não se preocupem, aqui somos todos iguais!” Um amigo costuma chamar esse tipo de pessoa de “professor de Deus”. Olhar para o céu sempre me pareceu uma ótima atividade filosófica para nos darmos conta de nosso lugar, especialmente, de nossa (pífia) importância diante da infinitude do Universo. A estudantes, por exemplo, a velocidade da luz é apresentada em metros por segundo (m/s). Prefiro mencioná-la em quilômetros por hora (km/h) – padrão de medida utilizado em nosso dia a dia, portanto de melhor compreensão. A velocidade da luz é de 1,079 bilhão de km/h. Viajando a essa velocidade, em pouco mais de 1 segundo, chegaríamos à Lua e, em pouco mais de 8 minutos, ao Sol. A Via Láctea possui 100 mil anos-luz de diâmetro. E nossa galáxia nem é das mais imponentes. A galáxia Alcyoneus (nome em homenagem a Alcyoneu, gigante da mitologia grega) tem 16,3 milhões de anos-luz. Então, para percorrer a gigantesca galáxia de um extremo a outro, seria necessário viajar a 1 bilhão de km/h durante 16,3 milhões de anos. Aqui, pausa para o caro leitor tomar fôlego e assimilar os números. Em 1990, a sonda Voyager 1, após completar vasto registro do Sistema Solar, dava continuidade à sua viagem ao infinito quando, a pedido do astrônomo Carl Sagan, a Nasa redirecionou sua câmera para um último registro fotográfico da Terra. À distância de seis bilhões de quilômetros, nosso planeta aparece menor do que um pixel na fotografia da Voyager. Ao ver a foto, Sagan chamou a Terra de pálido ponto azul. Essa foto poderia ser distribuída nos semáforos. Quem sabe seu apelo visual funcionasse como antídoto para a soberba de alguns? Quanto mais afastada do próprio umbigo for nossa visão do mundo, mais lúcida será a compreensão de nosso real papel por aqui. Quando não há soberba a nos cegar, é possível perceber que nada gira a nosso redor e que, sem a pretensão de contribuir com a Humanidade, tornamo-nos peça absolutamente descartável na lógica do Universo. Não basta superar, reiterados ou esporádicos, episódios de soberba, é preciso acrescentar algo de bom à vida dos que nos cercam. Deus (ou, para ateus, o Universo) não precisa de nós para viabilizar Seus propósitos. Somos nós quem precisamos Dele e de outros tantos semelhantes a nós para superarmos a pequenez da condição de grão de poeira cósmica dentro do pálido ponto azul. *Arnaldo Luis Theodosio Pazetti. Coronel da Polícia Militar, advogado e escritor