(Pixabay) Você já pensou que, em nossas experiências sensoriais diárias, construímos paisagens interiores que determinam como interagimos com o meio ambiente? A contemplação de paisagens, as mais diversas: um pôr do sol, uma área de floresta, a precipitação de um rio em uma cachoeira, até mesmo os jardins da praia ou uma praça bem tratada constituem experiências sensoriais indispensáveis. Vivenciadas conjuntamente, tais experiências concretizam espaços de desenvolvimento social, estimulam a solidariedade e enriquecem a nossa memória de bons momentos. Todas estas premissas ajudam a reforçar a importância dos estímulos do meio externo na geração de boas e belas paisagens em nosso interior: os inscapes. A palavra inscape foi criada por um extraordinário poeta inglês, Gérard Manley Hopkins, para significar a atenção especial que precisamos dar à essência das coisas e dos ambientes que nos rodeiam. Na visão de Hopkins, cada coisa ou pessoa tem a sua singularidade. Em outras palavras, cada coisa ou cada um de nós é especial e único, revelando que o Deus Criador não se repete em suas obras. Se formos suficientemente perceptíveis e sensíveis em relação ao meio externo, podemos projetar em nosso interior belas paisagens, construindo inscapes harmoniosos e equilibrados. Neste contexto, no entanto, é preciso um certo cuidado. Em outro extremo, se os cenários que projetamos em nosso interior estiverem degenerados ou embrutecidos por fatores mal cuidados, no meio externo, então… Com certeza nossos inscapes estarão em desequilíbrio, comprometendo o nosso bem-estar interior. Em uma abordagem inovadora e com certeza mais efetiva, podemos assegurar que o nosso equilíbrio com o ambiente externo se faz a partir da construção cuidadosa de nossas paisagens interiores. O professor Pierre Weil, que foi reitor da Universidade Holística para a Paz de Brasília (Unipaz), se alinha com estas premissas quando afirma que os diversos desequilíbrios no meio ambiente nascem de desequilíbrios no interior de cada um de nós. A relação é cíclica e retroalimentadora: se de forma descuidada instalamos em nosso interior inscapes deteriorados, esta condição nos embrutece e, a partir daí, podemos nos transformar em agentes de desequilíbrios ambientais. Em síntese, regra geral, as sociedades humanas projetam em seus ambientes externos a harmonia ou os desequilíbrios são cultivados no interior de seus cidadãos. A maior compreensão sobre a construção dessas paisagens internas, na abordagem dos desafios ambientais, é sem dúvida uma forma eficaz de promover a coexistência mais harmoniosa, seja pessoal ou coletiva, com os valores reais de sobrevivência, que no momento estão sendo ameaçados pela emergência climática. É triste constatar que, na busca do equilíbrio ambiental tão determinante em nossas vidas, continuamos a reproduzir velhos modelos, sem atingir na profundidade devida o fator humano. Avançamos sem resultados. *Alfredo Cordella. Professor da Unisanta