( Marcello Casal Jr/Agência Brasil ) Ao longo da minha trajetória como pesquisadora em saúde e engenharia, aprendi que inovação não começa em algoritmos, sensores ou modelos matemáticos. Ela começa nas pessoas: na forma como vivem, trabalham, adoecem e, muitas vezes, desistem de se cuidar porque o sistema não cabe na sua realidade. Inteligência artificial, telemedicina e monitoramento remoto são avanços importantes. Mas, em comunidades vulneráveis, tecnologia sozinha não resolve. Ela só gera impacto quando é desenhada a partir do cotidiano, e não apenas de dados, protótipos ou publicações. Inovar de forma responsável exige ir além do laboratório. É preciso entrar nos territórios, ouvir histórias e entender como fatores sociais, econômicos, culturais e geográficos moldam o acesso à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento. Quando essas dimensões são ignoradas, até soluções sofisticadas podem ampliar desigualdades. O acesso à saúde é atravessado por obstáculos estruturais: longos deslocamentos, falta de especialistas, moradias precárias, dificuldade de manter acompanhamento contínuo e rotinas incompatíveis com protocolos rígidos. Por isso, o modelo centrado no hospital e na resposta tardia falha. Em doenças crônicas e condições evitáveis, o sistema muitas vezes age quando o quadro já se agravou, e a prevenção precisa ser contínua, próxima e factível. Nesse ponto, soluções digitais podem levar o cuidado para mais perto das pessoas, reduzir deslocamentos e permitir ação precoce. No Brasil, o SUS amplia esse potencial ao oferecer escala e condições para políticas de prevenção baseadas em evidências. Mas nada disso funciona se a tecnologia não “caber” na vida real: ela precisa reduzir abandono de tratamento, respeitar limitações de tempo, renda e mobilidade e não exigir conectividade perfeita ou alto letramento digital. Também é essencial reconhecer que inovação não acontece isoladamente. Ela depende de articulação entre pesquisa, políticas públicas, serviços de saúde e comunidades. Sem diálogo desde o início, projetos ficam presos ao piloto, sem continuidade. E precisamos rever como medimos sucesso: além do desempenho técnico, importa adesão, continuidade do cuidado, redução de agravamentos evitáveis e fortalecimento da atenção primária. E isso exige trabalho multidisciplinar e escuta ativa. Tecnologia, por si só, não transforma a saúde. O que transforma é como ela é aplicada: com responsabilidade, compromisso e foco em pessoas. Só assim a inovação deixa de ser promessa e vira impacto real. *Suélia Fleury Rosa. Membro sênior do Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE)