[[legacy_image_291342]] Nos anos 1940, Manuel Bandeira escreveu: “Vi ontem um bicho na imundice do pátio catando comida entre os detritos” - uma cena que, não raro, moradores de grandes cidades brasileiras já presenciaram. O poeta continua descrevendo a voracidade do bicho ao encontrar o que comer e finaliza com os chocantes e comoventes versos: “O bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem”. A fome é um flagelo e tem que nos indignar. É um adversário que exige um combate sem trégua. Segundo projeções da FAO, a agência da ONU para Alimentação e Agricultura, em 2030, 670 milhões de pessoas, ou 8% da população mundial, passarão fome no planeta. A pesquisa também mostrou que as mulheres foram as mais atingidas pela insegurança alimentar. Em 2021, 31,9% das pessoas do sexo feminino em todo o mundo enfrentaram a insegurança alimentar. Os números para o Brasil foram coletados no período de 2019 a 2021, justamente, abrangendo o pior período da pandemia da covid-19, e revelaram que 61,3 milhões de brasileiros tiveram dificuldades para se alimentar. Mas como combater esse mal? Iniciativas como banco de alimentos, campanhas para reduzir o desperdício, programas de transferência de renda e novas tecnologias que ampliam e asseguram a produção agrícola são algumas das ações desenvolvidas e pensadas globalmente para mitigar o problema da insegurança alimentar. O Estado de São Paulo, além de tudo isso, implementou e mantém programas pioneiros de combate à fome e à desnutrição. O primeiro deles, o Bom Prato, considerado o maior programa de segurança alimentar da América Latina, já serviu 14 milhões de refeições em suas 107 unidades, somente no período de janeiro a junho deste ano. Ele está baseado em uma fórmula capaz de fornecer uma refeição nutritiva e saborosa ao preço de R\$ 1,00 desde a sua criação, há 22 anos. Outra iniciativa importante é o Projeto VivaLeite, que entrega cerca de 4 milhões de litros de leite por mês enriquecido com ferro e vitaminas A e D para mais de 300 mil crianças e idosos. O objetivo principal é combater a anemia por deficiência de ferro, que acarreta uma série de problemas no desenvolvimento mental e psicomotor, além de retardo no crescimento das crianças, e pode agravar a condição de saúde da pessoa idosa. Mas as nossas ações de enfrentamento à fome não param por aí. O Governo de São Paulo já determinou a instalação de mais 60 unidades do Bom Prato nos próximos dois anos. E para ampliar a capilaridade e atingir mais pessoas na distribuição de refeições, a atual gestão estadual inovou, e concebeu uma nova modelagem do Bom Prato, utilizando o conceito das dark kitchens. Composta de uma cozinha industrial fechada, isto é, sem salão para refeições, o novo formato de Bom Prato terá capacidade para produzir até 4 mil refeições diárias. E a cada uma dessas cozinhas, quatro unidades do Bom Prato Móvel estarão associadas para levar refeições às áreas mais vulneráveis e periféricas dos centros urbanos. Novas tecnologia e outros formatos estão sendo estudados para potencializar esses programas e torná-los cada vez mais assertivos em sua missão de alimentar pessoas. Enfrentar o problema da fome é uma prioridade, uma questão de princípios e valores, e dever de todo gestor público para que ninguém mais sofra com a dor dessa indignidade.