(FreePik) Na primeira infância, alguns convivem com o medo de monstros imaginários, que habitam em guarda-roupas ou embaixo de camas. Com o passar dos anos, a imagem daqueles seres na memória vai se tornando desbotada, desfocada, até que desaparece por completo. Mas nem todos têm a mesma sorte. Há crianças que convivem com o mal real. E todo “bom mal” que se preze é manifestado em barbárie. Há poucos dias, duas irmãs, de 25 e 28 anos, relataram à polícia que, desde os 4 anos de idade, sofriam estupros por parte do próprio pai. Como resultado da violência sexual paterna, juntas, tiveram 4 filhos. Há perguntas que ficam sem resposta: o que leva alguém a molestar mulheres, especialmente, as próprias filhas? A se tornar algoz de quem deveria proteger? A destruir sonhos que deveria ajudar a alimentar? A demonstrar indiferença pelo sofrimento da prole? A escrita, surgida há 6 mil anos, ainda não possui palavra para adjetivar o ser pseudo-humano protagonista dessa tragédia. Não me ocupo com o destino dele depois que sua alma se desgarrar do corpo: se irá para o umbral, para o purgatório ou para o Vale do Rio Flegetonte – 1º anel do 7º círculo do inferno de Dante, destinado aos que praticaram violência contra o próximo. A quem mais é confiado, mais será cobrado, não é nisso que cremos, caro leitor? Para meu livramento, não me cabe definir o destino desse inominável. Se tal definição fosse de minha alçada, provavelmente, retardaria meu, já lento, desenvolvimento espiritual. Também não procuro refletir sobre qual a pena terrena adequada à magnitude da atrocidade praticada – demanda que cabe ao Estado. Minha atenção está nas jovens vítimas que conviveram por mais de duas décadas com bestial violência. E a vida pode nos brindar com presente maior do que ter filhos? Há oportunidade mais expressiva para nos tornarmos pessoas melhores do que no papel de pais ou mães? Há missão mais nobre do que a de bem encaminhar filhos, biológicos ou não (absolutamente sem qualquer distinção)? Como pode o mundo evoluir sem a capacidade de ajudarmos a transformar nossos filhos em pessoas melhores do que nós? Sem suporte dos pais (ou de quem os substituam), a trajetória da vida apresenta obstáculos quase intransponíveis. Crianças e jovens que, absurdamente, sofrem abusos sexuais dos pais podem desenvolver sentimentos de amor e de confiança? Sem apoio emocional de parentes e amigos, ajuda profissional assegurada pelo Estado e, sobretudo, estreita relação com Deus, é impossível deixar o trauma para trás. Das inúmeras medidas concretas voltadas a crianças e jovens vítimas de estupro estão mecanismos eficientes para ágil verificação de denúncias anônimas e o imediato afastamento do convívio com o inominável agressor por meio de acolhimento em locais disponibilizados pelo Estado, por ONGs ou por famílias previamente cadastradas. Infelizmente, é utópico acreditar que se pode erradicar esse tipo de violência. O destino dos inomináveis continuará a ser atribuição do Judiciário e de Deus. A nossa parte – cada um, à sua maneira – é a de contribuir para que as vítimas consigam superar os terríveis traumas vividos. *Arnaldo Luis Theodosio Pazetti. Coronel da PM, advogado e escritor