(Marcello Casal Jr. / Agência Brasil) O Banco Central do Brasil viveu em 2024 um capítulo emblemático de sua história. Sob a liderança de Roberto Campos Neto, o primeiro presidente da instituição sob o regime de autonomia plena, o BC mostrou ao País o que significa independência — de verdade, não apenas no papel. Não foi um percurso fácil. Em um governo petista, conhecido por sua aversão histórica a políticas de juros elevados, Campos Neto e sua equipe mantiveram o foco na estabilidade econômica. Pressões políticas? Houve de sobra. De um lado, parlamentares e membros do Executivo cobravam juros mais baixos como solução mágica para impulsionar o crescimento e estimular o consumo. Do outro, a instituição reafirmava, reunião após reunião, que sua missão era defender a inflação dentro da meta, mesmo que isso significasse enfrentar a impopularidade e o desgaste público. E assim foi. Na última reunião de 2024 - e também a última sob o comando de Campos Neto -, o Comitê de Política Monetária (Copom) reforçou a mensagem: um aumento de 1 ponto percentual na taxa Selic, que saltou de 11,25% para 12,25% ao ano. Um golpe duro para quem esperava um afrouxamento. Mas, para o Banco Central, não se trata de ceder às expectativas populistas, e sim de cumprir um papel institucional vital: manter a economia sob controle, mesmo à custa de medidas impopulares. Campos Neto encerra seu mandato como símbolo de uma era que inaugura um BC mais blindado contra os interesses de ocasião. A autonomia legal - conquistada em 2021 - não foi apenas uma canetada jurídica; tornou-se a bússola moral de uma gestão que resistiu à tentação de baixar a guarda diante das demandas do curto prazo. E para quem acha que isso é pouco, vale lembrar que o Brasil não é para principiantes. Num país onde a política muitas vezes atropela a economia, o Banco Central deu o exemplo de que estabilidade institucional só é possível quando as regras do jogo não são manipuladas ao sabor das conveniências. Independência é, antes de tudo, um compromisso com o país, e não com governos. Gostem ou não, é preciso reconhecer que Campos Neto entregou mais do que relatórios e números: entregou um legado. Resta saber se seus sucessores terão a mesma coragem de seguir enfrentando as tempestades que virão - e acredite, elas virão. Afinal, a autonomia do BC só é efetiva enquanto houver quem esteja disposto a defendê-la. *Gregório José. Jornalista, radialista e filósofo