[[legacy_image_270606]] A força inata que move todos os seres vivos em busca da perpetuação da espécie é conhecida como imperativo biológico. Até os vírus se curvam a essa força (embora, a depender da classificação científica, não sejam considerados seres vivos). Há fenômeno semelhante na política: o imperativo político. Em busca da perpetuação própria (e por que não também da espécie?), políticos sempre se empenharam em se adaptar às condições necessárias para o sucesso nas urnas. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! A mais recente análise de políticos pindoramenses em placa de Petri revela inexistir qualquer diferença genética entre DNA de esquerda e de direita, e entre cromossomos de direita e de esquerda. O imperativo político, aperfeiçoado por uma espécie de “darwinismo político” encontrado no século 21, faz com que o Homo politicus não mais se preocupe, ao menos aqui em Pindorama, com demandas “sem importância” como educação, saúde, habitação, segurança, saneamento básico, emprego ou inflação. A política “evoluiu”, basta polemizar: a favor ou contra o desarmamento? O saneamento básico, com índices medievais pelo País afora, pode esperar; a favor ou contra a linguagem neutra nas escolas? A eficiente estruturação do ensino que desenvolva a habilidade de leitura com absoluta compreensão do texto (e possibilite sua análise crítica), de escrita adequada e de raciocínio lógico em crianças e jovens, fica para depois; a favor ou contra as mulheres (se é que é possível formular uma pergunta com esse grau de tolice)? Nenhum homem sem problemas cognitivos é contra as mulheres. Mas dá votos (muitos votos) divulgar o contrário; a favor ou contra os negros? Nenhuma pessoa sem problemas cognitivos (é preciso repetir o argumento) é contra negros, amarelos, vermelhos e, se existirem, azuis. E também é possível obter muitos votos com o discurso do “branco com dívida histórica”. Abrindo parênteses: quando meus avós nasceram, já não havia escravidão no País. Devo me sentir com dívida história em relação a quem jamais pratiquei algum mal em razão de sua cor? Para refletir: os alemães contemporâneos se sentem como devedores históricos dos judeus ou somente se preocupam em não reproduzir os odiosos crimes do período nazista? Voltemos ao Homo politicus. Durante o mandato, não é preciso proposta alguma, não é preciso legislar. Se o caro leitor quiser se aventurar na política, especialmente para uma vaga no Legislativo, siga a fórmula do sucesso. Para a campanha, selecione um segmento da sociedade: mulheres, negros, idosos, membros da comunidade LGBTQIA+. Faça-os crer que é possível se atingir um mundo melhor para tal segmento, como se, absurdamente, houvesse um saneamento básico deficitário exclusivo para mulheres, ou uma inflação exclusiva para negros, ou, ainda, alíquotas de impostos exclusivas para a comunidade LGBTQIA+. Seu foco nem precisa ser gente, pode defender os pets ou a Mata Atlântica, se achar menos entediante do que lidar com pessoas. Pronto, a eleição é quase certa. É, parcela da classe política me faz lembrar de trecho de música de Chico Science: “Só tem caranguejo esperto saindo desse manguezal”.