Imagem ilustrativa (Freepik) A inteligência artificial (IA) vem sendo apresentada como uma das maiores promessas para transformar a Medicina. Com algoritmos capazes de acelerar diagnósticos, personalizar tratamentos e apoiar a descoberta de novos medicamentos, a tecnologia parece apontar para um futuro mais preciso e eficiente. Mas há um problema de origem que ameaça comprometer esses avanços: a base de dados utilizada para treinar esses sistemas foi construída, em grande parte, sobre décadas de pesquisa clínica centrada em homens. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Historicamente, mulheres foram sub-representadas nos ensaios clínicos. A exclusão foi justificada por razões que iam da possibilidade de gravidez à suposta complexidade hormonal, passando pela ideia de que os resultados em homens poderiam ser automaticamente aplicados às mulheres. O legado dessa prática é um conjunto de informações enviesadas, que até hoje define doses, protocolos e padrões de tratamento. As consequências já estão registradas: estudos revelam que mulheres sofrem 36% mais reações adversas graves a medicamentos e quase o dobro de efeitos negativos em relação aos homens. Agora, esse desequilíbrio chega à era da inteligência artificial. Pesquisadores do MIT demonstraram que modelos treinados em imagens médicas apresentam menor acurácia em diagnósticos femininos. Um relatório da Nature Digital Medicine alerta para o risco de que os algoritmos não apenas reproduzam as falhas históricas, mas também as multipliquem em escala global. Se antes um ensaio clínico restrito poderia afetar centenas de pessoas, um sistema de IA adotado em larga escala pode replicar os mesmos erros em milhões de pacientes ao redor do mundo. Especialistas sublinham que não se trata apenas de um problema técnico, mas de uma questão de segurança pública. Um diagnóstico errado, uma prescrição inadequada ou um tratamento atrasado por vieses nos dados podem custar vidas. A tecnologia que promete ser neutra e objetiva carrega, na verdade, a herança de décadas de desigualdade na pesquisa médica. O debate agora é sobre qual caminho será seguido. A inteligência artificial pode se tornar uma ferramenta para corrigir essa distorção histórica, equilibrando dados e revelando padrões invisíveis. Mas, para isso, será preciso enfrentar de frente o viés presente nas bases de treinamento, diversificar os estudos clínicos e exigir transparência dos desenvolvedores. A pergunta que permanece é inevitável: a IA será capaz de fechar a lacuna de gênero na Medicina ou estará destinada a torná-la permanente?