[[legacy_image_278285]] O escritor israelense Amós Oz (1939-2008) analisou em entrevista o perfil dos fanáticos na política. Um dos fundadores da organização Paz Agora, cujo propósito é assegurar a paz interna e externa para Israel por meio de conciliação histórica com o povo palestino e com os países árabes vizinhos, Oz destacou-se no cenário internacional como importante ensaísta moderno, além de notável romancista. Sua análise vai além dos padrões convencionais, que levam em conta aspectos históricos, sociológicos e políticos ao tentar compreender as razões e motivações daqueles que se situam nos espectros mais radicais. São pessoas intransigentes, intolerantes, agressivas, avessas ao diálogo e à conciliação. Amós Oz chama a atenção para duas características presentes em tais indivíduos: sua absoluta incapacidade de rir e divertir-se de maneira tranquila e a ausência de curiosidade em suas vidas. Em tempos de intensa radicalização nas sociedades atuais, em que amizades e laços de família se desfazem – muitas vezes de modo violento – em razão de alinhamentos ideológicos, vale a pena seguir o argumento do escritor israelense. O fanático, segundo ele, não tem senso de humor. Concordo e acrescento: o radical não percebe a alegria e o contentamento, que exigem os outros para serem concretizados. Suas piadas são sempre agressivas, debochadas, preconceituosas, desrespeitosas. Ri do outro, mas colocando-o em situação inferior, sem respeitá-lo como indivíduo. Não há leveza ou suavidade em suas ações. Está sempre pronto a discordar e principalmente a atacar, visando destruir o adversário. E é incapaz de sentir emoções simples – a alegria despojada em particular – que faz das pessoas seres humanos capazes de rir e chorar diante das situações que a vida proporciona. É duro, insensível, resistente, enfim. Para que alguém tenha senso de humor efetivo, é preciso estar aberto e atento ao mundo. E aí entra a segunda questão: a curiosidade. Mas, para que alguém seja curioso em relação ao mundo, às pessoas, à vida, à ciência ou às artes, ele não pode ter certezas tão enraizadas como impenetráveis. A dúvida e a incerteza precisam estar presentes a todo instante, como se perguntássemos sempre: Tenho razão nisso? Por quê? As conquistas e avanços que a humanidade realizou em sua trajetória histórica estiveram ligadas a questionamentos que muitos fizeram, fossem eles filósofos, buscando sentido e significado na vida; cientistas, tentando entender as leis da natureza; artistas de todos os tipos, tentando encontrar novas formas de exprimir suas ideias e sensibilidades. Fanáticos são insuportáveis. Donos da verdade, monocromáticos em seus temas e histórias, cansam, desagradam, irritam. Mas causam males que vão além das relações humanas e sociais, pois sedimentam e fortalecem ideologias autoritárias, que não respeitam liberdades e a democracia, rejeitam o contraditório e o espaço que as minorias, de todos os tipos, precisam ter e gozar. Desejam um mundo à sua imagem e semelhança: limitado, pobre, sem graça e humor, no qual é proibido discordar e especialmente investigar e entender o que aí está, a desafiar o nosso sempre parco e limitado conhecimento. Viveremos muito melhor quando as pessoas praticarem a alegria com intensidade e não deixarem de ter curiosidade a todo instante. Alguém duvida disso?