Foto ilustrativa (Reprodução/Facebook) Prestes a lançar sua autobiografia, Hosmany Ramos chega aos 80 anos de vida preso no Complexo Penitenciário de Itajaí, em Santa Catarina. Em dezembro de 2024, ele foi condenado a pouco mais de dez anos de cadeia por tentativa de homicídio e falsa identidade — acusações que ele nega. O novo processo o levou de volta ao cárcere depois ter quitado a dívida com a Justiça em 2016, após passar mais de três décadas na prisão. Naquela época, a liberdade parecia ser definitiva. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Hosmany até viajou à Noruega para rever o único filho, além do neto que ainda não conhecia. Passou o Natal em família. Ligou-me para contar a novidade e fizemos uma reportagem exclusiva. Depois de retornar ao Brasil, retomou sua carreira de cirurgião plástico. Seus dias de cidadão livre, no entanto, duraram apenas oito anos. Tendo se tornado escritor em uma penitenciária de segurança máxima, Hosmany disse certa vez: “A Literatura é a arte do sofrimento”. Parecia convencido de compartilhar o destino de grandes escritores que também passaram pela prisão: “Graciliano Ramos, Jean Genet, Oscar Wilde, Dostoievski, Máximo Gorki... Nós temos um cordão umbilical semelhante, ou seja, a Literatura também do sofrimento prisional.” Hosmany escreveu oito livros na cadeia. O meu livro de contos Um Violino para os Gatos me abriu a porta para o mundo prisional de Hosmany Ramos. Deixei um exemplar na portaria do Presídio de Avaré, no Interior paulista, com um pedido de entrevista dentro. Uma semana depois, fui informado de que Hosmany me receberia. Na época, eu era repórter da TV Globo e a ideia era fazer uma reportagem sobre a rotina do “médico bandido” no cárcere. Levei minha melhor caneta para entrevistá-lo: uma Montblanc preta e dourada que acabara de ganhar de um amigo recém-chegado de Viena. Bom conhecedor do mundo do luxo, Hosmany ficou o tempo todo paquerando a joia que pingava no bolso do meu paletó uma gota de neve falsa, réplica das geladas montanhas alpinas. Cheguei até a suspeitar que os olhos hosmanyanos tentaram me pedir para deixar o metal banhado a ouro com ele. Mas fingi não entender a mensagem e toquei a entrevista. Claro que a caneta saiu comigo devidamente fiscalizada pela segurança. Em 2000, fiz uma outra reportagem com ele sobre sua entrada para o seleto clube de escritores que tem como integrantes autores do porte de Jean-Paul Sartre e Albert Camus. Hosmany acabara de ser publicado pela editora francesa Gallimard. Naquele ano, ele estava preso na Casa de Custódia de Taubaté. Marginália, versado para o francês com o título Marginalia, sem acento, foi escrito por Hosmany em 1986. São 14 contos e uma novela: “Um segmento do livro é autobiográfico, mostra meu convívio com a sociedade carioca, a boate Hipopótamos e a outra vida que encontrei na prisão... O leitor que compra o meu livro se prepare, que vai entrar numa montanha russa... onde vai subir e descer o tempo todo”, me respondeu o presidiário, agora, iluminado pela prestigiada Gallimard.