(Reprodução) Era uma diva clássica. De beleza estonteante, foi logo capturada por agentes dos primeiros estúdios de Hollywood nos tempos de Valentino e Theda Bara. Corria a década de 1920, Joan Lowell era seu nome e tinha talentos nada usuais para uma estrela: escrevia bem, tinha curiosidade pelo mundo e uma paixão irrefreável pela natureza. Suportou o glamour dos esfuziantes anos loucos na Califórnia dourada até o ponto de ser contratada por Chaplin. Sim, o deus da sétima arte com faro ímpar para boas parceiras e beldades. Joan foi a partner do Carlitos na obra-prima Em Busca do Ouro, aquela fita que imortalizou o banquete de botas e a dancinha de pães. Isso foi em 1925. A partir daí, o interesse da atriz pelo sucesso só declinou. Num caso raro de desprendimento, queria mesmo seus livros, discos e rancho. Casou, descasou e aos 34 anos, em 1936, apaixonou-se pelo capitão do mar Leek Bowen. Embarcou em um cruzeiro meio sem destino pelos mares do Sul. Aportando em Santos, no apogeu do café e imigração, correndo os olhos pela costa e com a Serra do Mar a distância, foi acometida por um raio na alma: é daqui em diante meu rumo. Uma estrela chapliniana com irrefreável apelo pela aventura escreveria desde este porto sua passagem num livro de viagem primoroso: Terra Prometida. Assim diz: “Ficamos um dia no Rio, partindo para Santos, porto de café. Lembrava uma megera, rica graças ao café rumo aos sete mares. As ruas cortadas por esgoto quando a febre amarela vitimava tripulações de navios ancorados. Agora Santos é uma dama, com linda fisionomia”. Joan não se contenta em ser mais uma dama na cidade-dama. Enlaçada pelo seu capitão, ouve a proposta murmurante no umbral do Parque Balneário: “Vê aquele ponto, onde a montanha alcança o mar? Há ali alguns habitantes, pescadores e índios guaranis. Se você achasse que poderia ficar num lugar como aquele, por três meses, numa cabana, sem vizinhos, esquecida das brilhantes luzes da Broadway, eu lhe pediria para ser minha companheira. A companheira de um pioneiro”. Assim, Joan esperou numa cabana acolhida numa aldeia de pescadores num abrupto promontório onde as montanhas encontram o mar. Esperou só até o capitão vender o apartamento em Nova Iorque e se desvencilhar de todo aparato ianque para honrar a jura de amor eterno. Assim foi até que, movidos pela marcha para o Oeste promovida por Vargas, viajaram até o Brasil profundo comprando terras em Goiás. Interessante que outras estrelas de Hollywood já vinham curiosas pelo Planalto Central brasileiro como região mágica duma nova era. Janet Gaynor, primeira vencedora do Oscar e amiga de Joan, a influenciou a comprar terras onde 20 anos depois surgiria Brasília. Miss Lowell se tornaria Joana, empreendedora no Cerrado, sem falta alguma do jet-set de Sunset Boulevard. Nunca esquecera da jornada que começara ao conhecer um chofer no Café Paulista que fora marinheiro num navio americano. “Leve-me a um lugar na costa ao Sul de Santos na latitude 25. É o único lugar num espaço de 50 milhas onde as montanhas chegam ao mar. Temos de esperar a maré baixar e ir pela praia... Chama-se Praia Grande”. Um roteiro digno de Somerset Maugham no Véu Pintado, mas que por um amor caído de moda se fez verdade. Uma deusa que se encontrou nos trópicos. A vida é um filme! *Flávio Viegas Amoreira. Escritor, membro das Academias de Letras de Santos e Praia Grande