(FreePik) Talvez a gente já tenha passado pelo mesmo lugar sem perceber. Um prédio parado, janela sem rosto, varanda sem abraço. A gente finge que não vê, mas eles estão lá, imóveis, insistentes, como silêncio atravessando a cidade. No começo parecem apenas obras interrompidas. Depois, quando a poeira se instala, viram algo maior: lembranças de um futuro que nunca chegou. Onde havia espaço para vida, instala-se o vazio. A esquina que poderia ser encontro perde coragem. O comércio perde ritmo. A calçada perde passos. Aos poucos, a vizinhança muda: ruas ficam mais escuras, trajetos se desviam, e um vazio passa a ditar a rotina de quem mora por perto. Não são ruínas antigas que guardam memória. São esqueletos modernos que exalam promessas quebradas. Livros sem final, histórias suspensas. E o pior é que nos acostumamos. A criança cresce achando que abandono faz parte da paisagem. O que nasceu como iniciativa privada, quando interrompido, acaba transbordando em impacto coletivo. Água, energia e transporte, tudo pensado para moradores que não vieram, se converte em desperdício. Não se trata apenas de estética. É economia mal usada, infraestrutura corroída, confiança dissolvida. Cada obra inacabada é uma ferida aberta na cidade e, como toda ferida, ou se trata, ou se transforma em cicatriz dolorosa. Mas não precisa ser assim. Há ferramentas capazes de reduzir riscos e proteger a coletividade: seguros de obra, garantias financeiras, IPTU progressivo, inventários públicos que tornem visível o problema. E, sobretudo, há a força da transparência. O BIM pode ser mais que tecnologia, pode significar rastreabilidade, clareza e responsabilidade. Um modo de garantir que o que se começa, se conclui. O dilema é simples. Ou multiplicamos vazios, ou os transformamos em possibilidades. Não se trata de copiar Berlim ou Barcelona. Trata-se de decidir que, aqui, o inacabado não é destino. É matéria-prima para outros usos, outras histórias. Um esqueleto pode virar moradia social, centro comunitário, espaço criativo. O que hoje é obstáculo pode amanhã se tornar ponto de encontro. No fundo, o que está em jogo não são torres, mas pertencimento. Cidade inteligente não é a que ergue mais prédios, e sim a que conclui as histórias que promete. O futuro não vai nos julgar pela altura do concreto, mas pela coragem de devolver vida ao que ficou suspenso. E, se faltar essa coragem, nossos hiatos não serão prédios: serão espelhos. *Alessandro Lopes. Arquiteto, pesquisador em cidades criativas e inteligentes e mestre em Direito Ambiental