(FreePik) O que define Deus e o que Lhe pertence como atributo exclusivo? De um tempo para cá, passei a identificar mais uma virtude Divina: o (refinado) senso de humor. Fim de tarde, estava deitado numa espreguiçadeira pensando na vida. Não era possível avistar arranha-céus, nem colinas. Sobre mim, em todas as direções, apenas o céu, limpo e absolutamente silencioso, parecendo querer respeitar meus pensamentos. Sob mim, o mar em permanente bailado, nítido. Brumas, apenas na mente. Refletindo a luz do sol, o mar não estava azul nem verde, estava prateado. O caro leitor há de convir que, num cenário assim, não há opção mais adequada do que dialogar com Deus. E lá estávamos nós – eu e Ele. Parecia mais um interrogatório. Só O ocupava com minhas perguntas. Do nada e no meio do nada, surgiram algumas gaivotas. Escoltaram o navio durante algum tempo. Quase não batiam as asas, planavam. Pareciam não fazer esforço algum. Sabiam extrair o melhor do vento, o melhor da vida. “Foram feitas para voar; você, para outro propósito” – pareceu ter me sussurrado Deus. Sorri. Ele me entendeu, é o Onisciente. Tive a impressão de que os pássaros estavam me esperando sorrir para se despedirem. Foram embora, talvez, inspirar outros como eu. Na madrugada, lá estava de novo, dessa vez, admirando somente o mar que insistia em não dormir. O céu, escuro, parecia repousar. Voltei a amolar Deus com perguntas, algumas repetidas. Ele havia me deixado mal acostumado porque nunca deixara de me responder – no tempo Dele, é claro. Gaivotas teriam o condão de ensinar algo sobre o propósito da vida? Foi uma pergunta quase retórica, pois acreditei que Deus nem perderia tempo em me responder. Afinal, há tantas outras pessoas com demandas mais sérias e urgentes, que achei justo que ficasse sem resposta. Estava conformado com aquilo, mesmo antes de concluir minha pergunta. Mas, por ato falho e por um instante, havia me esquecido de que Ele é Deus. Levantei a cabeça para confirmar se o céu ainda dormia. E avistei uma gaivota. Uma única ave desafiando o oceano na madrugada. Fruto de toda nossa conversa desenvolvida em dois atos, como numa peça que nos reserva um gran finale, compreendi que estava diante do senso de humor de Deus num par de asas a me dizer que não se tratava de delírio, que, por aqui, cada um tem seu propósito. E o daquela gaivota, em voo solitário na madrugada, era me lembrar da existência Dele. *Arnaldo Luis Theodosio Pazetti. Coronel PM, advogado e escritor