(Freepik) Pois bem, marciano. Já que não está mais na moda chamar sua atenção com um “alô, alô”, o máximo que eu posso fazer para não passar a impressão de arcaico é começar esse nosso papo com um TBT, marciano! Aqui quem fala é da Terra e para variar estamos em guerra! Um ou outro desavisado, que deve morar mais em Marte do que você mesmo, diz numa ou noutra conversa de cafeteria estar preocupado com a guerra que pode acontecer, num futuro próximo, no caso dos presidentes dos Estados Unidos e China continuarem com a troca de tarifas comerciais impostas reciprocamente. Ora, meu amigo; esses aí não se deram conta de que a guerra já foi declarada e que nela o mundo já está há algum tempo. Apesar da batalha com bombas, trincheiras e pólvora ainda estar em alta, agora o terráqueo involuiu para outras práticas de guerra que utilizam estratégias distintas como ciber-ataques, desinformação, fake news, utilização da própria lei como arma (lawfare) e práticas comerciais para atingir o adversário. É a chamada guerra híbrida ou assimétrica que visa vulnerar o adversário criando incertezas, caos social e econômico, a ponto de colocá-lo de joelhos ou diante da necessidade da assinatura de um pedido de trégua. Quando se trata de guerra, tudo deve ser considerado como involução, mas o bombardeio bilateral de tarifas entre China e Estados Unidos descortina um cenário até que alvissareiro se olharmos o lado meio cheio do copo. Em primeiro lugar, parece que o tão temido Armagedom vindo da guerra nuclear entre as grandes potências mundiais não está na ordem do dia de nenhuma delas. Além disso, parece menos pior involuir para uma guerra que não culmine diretamente em crianças mudas, telepáticas ou meninas cegas, inexatas. Não, marciano! Não conheço seu mundo e muito menos vivo nele. Tenho a exata consciência que - de maneira indireta - o mundo todo acaba sendo impactado pela guerra assimétrica que já está declarada e instalada aqui no planeta azul. De qualquer maneira, esse alô alô que mando para você (ou melhor, esse TBT), para além de retomar um contato que fizeram contigo a um tempo atrás, serve para acordar alguns terráqueos que sonham ansiosos com o porvir de uma guerra que na verdade já chegou e cujo processo não se sabe ao certo onde vai dar, mas em sangue nas ruas não parece ser. *Juiz do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), atuando no Programa Profissional Visitante do Tribunal Penal Internacional, em Haia, e integrante da Unidade de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Interamericano de Direitos Humanos do TJ-SP