( mayke Toscano/Secom-MT ) Os índios guerreiros, que habitavam o Pantanal – maior planície alagada do mundo –, tiveram participação ativa na campanha militar que se tornou conhecida mundo afora, por minuciosa descrição no livro Retirada da Laguna, do alferes Alfredo d'Escragnolle Taunay (1843-1899), futuro Visconde de Taunay, membro da Academia Brasileira de Letras. O livro, originalmente escrito em francês, foi vertido para o português em 2011 e encontra-se disponível na Biblioteca do Senado Federal, Brasília, volume 149. Os Guaicurus eram os “senhores” daquelas amplas áreas alagadiças e, em épocas remotas, lá existia apenas a Colônia Militar de Nioaque, instalada em 1855. Dez anos depois, Nioaque foi invadida pelos paraguaios, supostamente em manobra dissuasória e desgastante, para obrigar o Brasil a abrir uma segunda frente de batalhas na Guerra da Tríplice Aliança. Uma outra coluna paraguaia subiu o Rio Paraguai alcançando o Forte Coimbra, também rechaçada por soldados brasileiros e índios guaicurus. Taunay, descreve com detalhes a formação de um corpo de exército – conhecido como “Voluntários da Pátria” – composto por brasileiros provenientes de quase todas as regiões geográficas do Brasil e por índios guaicurus. Com uma descrição tipo diário de campanha, Taunay destaca a concentração da tropa brasileira na pequena vila de Miranda, MS, junto ao Rio Aquidauana, onde se formou um “corpo de exército” propriamente dito. No dia 11 de janeiro de 1867, uma brigada com cerca de 1.600 homens partiu de Miranda rumo ao Sul, chegando a Nioaque treze dias depois (24/01/1867), encontrando-a abandonada e incendiada pelos paraguaios. No 25 de fevereiro de 1867 os voluntários prosseguiram em marcha para o Sul, enfrentando sempre as emboscadas dos paraguaios, especialmente nas travessias dos inúmeros rios e “corixos” (depressões alagadas, assim definidas por Taunay). Segundo Taunay, os guaicurus, foram recrutados para atuar principalmente como guias das tropas em região ampla e desconhecida e foram homenageados pelo Exército Brasileiro com o nome histórico da 4ª Brigada de Cavalaria (Brigada Guaicurus), com sede em Dourados, MS, tendo o 9º Grupo de Artilharia de Campanha (9º GAC), com sede em Nioaque, como uma das suas peças de manobra. Tive a honra de comandar o 9º GAC por dois anos sucessivos (1986/1987), quando já se haviam passados cento e vinte anos da malfadada epopeia tão bem descrita por Taunay e pude constatar que ainda prevalecia – e prevalece até hoje – a solidariedade dos fazendeiros, dos peões e dos remanescentes índios guaicurus, em especial dos seus sucessores, terenas, que ocupam uma reserva com aproximadamente 30 Km2, em Nioaque, a pouco mais de 7 Km do 9ºGAC. A aldeia tecnicamente chamada de TI (Terra Indígena) tem apoio das autoridades dos três escalões de governo (local, estadual e federal) e está dividida em três subáreas destinadas a habitações, ao plantio e à floresta virgem onde predomina a aroeira. A aroeira é o “concreto” do Pantanal, pois se solidifica em contato com a água. O 9º GAC recebe anualmente, até os dias atuais, cerca de 400 jovens, muitos de origem indígena, para os quais são ministradas instruções militares de dia e parte da noite, com dois propósitos: ocupa-los o máximo possível e compensá-los com três dias de folga, uma vez por mês, para visitarem suas famílias. A área de recrutamento e de responsabilidade do 9º GAC se estende por quase todo o lado Oeste da Serra de Maracaju, englobando o Pantanal do Mato Grosso do Sul até alcançar a fronteira do Brasil com o Paraguai. E, desta enorme área pouco habitada os jovens são convocados para prestar o Serviço Militar. A eles prestamos uma pequena homenagem, especialmente aos Guaicurus. *Elcio Rogerio Secomandi. Membro da Academia Santista de Letras