Em anos eleitorais, o roteiro das administrações ineficientes obedece a um cinismo previsível. Quando a zeladoria básica colapsa e a realidade das ruas cobra seu preço, o maquinário do marketing é acionado em potência máxima. O abandono crônico, de súbito, é mascarado nas telas por maquetes eletrônicas impecáveis, superproduções audiovisuais e modelagens em 3D de projetos faraônicos. É a pirotecnia virtual atuando como cortina de fumaça para o abismo do mundo real. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! A tática é ancestral; a roupagem, contudo, ostenta ares de novidade. Obras que assombram o imaginário popular há décadas - cujas pedras fundamentais já acumulam limo e os orçamentos originais multiplicaram-se exponencialmente - ressurgem sob medida para o calendário das urnas. Projetos engavetados são repaginados graficamente e alçados à condição de redenção estrutural. Ocorre que o asfalto virtual não cicatriza o buraco da via, e a escola renderizada não abriga o aluno. O que se assiste é o triunfo inconteste da “velha política”. E aqui cabe uma demarcação de fronteiras: a velha política independe da certidão de nascimento de quem a pratica. Observa-se, com frequência indisfarçável, políticos jovens utilizando a mesma retórica embolorada e os vícios de palanque dos coronéis de outrora. A embalagem pode até ser algorítmica, impulsionada por cortes dinâmicos e linguagem de internet, mas a essência não muda: são promessas estéreis que só dão frutos em época de eleição. Existe, no entanto, uma variável que os marqueteiros ignoram: a exaustão do eleitorado. A sociedade não se alimenta mais de utopias de computador. O cidadão que sofre no transporte precário, que desvia do mato alto e que amarga a fila da madrugada nos postos de saúde desenvolveu uma imunidade implacável contra o marketing de ilusão. A gestão pública requer tijolo, planejamento e suor, não efeitos especiais. Quando um governo precisa fabricar realidades paralelas para justificar sua permanência no apagar das luzes, não está desenhando um plano de futuro. Está, de fato, assinando um atestado público de falência administrativa. A verdade das calçadas é nua e crua: pixel não tapa buraco. Enquanto a velha política insistir em governar pelo metaverso, o eleitor dará a sua resposta nas urnas do mundo palpável.