[[legacy_image_293294]] Toda cidade tem seu coração pulsante e ele bate feliz à noite. Ver, ser visto, bebericar vendo o movimento e tudo convergir para uma praça que represente o melhor da história da terra. Assim é o Gonzaga desde a virada do século 19, com nosso apogeu balneário ligando a Estação do Valongo aos hotéis da orla e tendo como referência o Bar do Gonzaga. Não pensem que o hábito de banhar-se ao mar é antigo: só cerca de 150 anos atrás, por recomendação médica, ele deu lugar ao lazer. Importamos de Biarritz, Brighton e Cannes o estilo, o temperamento e o glamour para Santos e só Copacabana ombreava com nosso charme bancado pelo café e indústrias paulistas. Cometeu-se o pecado contra a memória que foi a derrubada do Parque Balneário. Hoje, com mais consciência histórica, seria repetido o desmonte? Creio que não. E não é que o Bulevar da Othon Feliciano ganhou uma galeria de gonzaguianos famosos e célebres? Importante iniciativa da Prefeitura para rememorar os que forjaram o bairro socioculturalmente. Pagu não poderia faltar, já que reunia a 'intelligentsia' santense no Bar Regina. Pagu que será tema da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) em novembro! Gilberto Mendes, que ia ao mundo do Havaí a São Petersburgo sem nunca esquecer as primícias do 'footing' entre o Cine Atlântico com teto retrátil e o Don Fabrizio, também está lá. E na nova galeria, dois gigantes da luta antirracista: Quintino de Lacerda, abolicionista, e Alzira Rufino, poeta e militante do movimento negro que só tardiamente tem sido elevada ao status de personalidade nacional. O bairro foi caixa de ressonância desses vultos de relevo nacional e internacional. Sem faltar o Chorão do Charlie Brown Jr., que entre o rock e o skate renovou o poder santista para tendências culturais. Um notável local que não poderia faltar era o Orlando, do Último Gole, que no Carnaval e na querida Portuguesa Santista marcou a força de nossa colônia lusitana na mais portuguesa freguesia além-mar. Santos na outra margem do Tejo. Quantas camadas de tempo passaram pela mente e personagens que poderiam constar desse painel necessário ser mantido e ampliado! Saudade do Brizola e sua antológica banca-sebo que reunia outra intelectualidade ali na Bahia com a Marechal Deodoro... Saudade do dr. Nildo Serpa Cruz à porta da querida Martins Fontes que tanto representa ao mercado livreiro... Saudade do Café do Xera, onde conheci o impagável Maurice Legèard com o fiel escudeiro Argemiro Antunes, desenhista de proa! Como uma matrioska, aquelas bonecas russas, muitos Gonzagas num só Gonzaga! E por que não um dos seus personagens mais característicos que levou Gonzaga como alcunha? Dudu do Gonzaga, que foi pioneiro irreverente na saída pública de todos os armários. Caricato sim, mas de coragem quase subversiva em seu tempo! Sem falar no querido Bar da Praia, que marcou época com a bossa nova de Johnny Alf e a poesia de Haroldo de Campos, onde pudemos testemunhar o melhor da cultura brasileira! Dedico este artigo a um gonzaguino que aí está entre nós para celebrar essa atmosfera, meu querido amigo Eduardo Caldeira! Os latinos tinham uma expressão certeira, genius loci, o espírito do lugar. Que o espírito gonzaguino renasça das obras necessárias e bulevares revitalizados como o da Othon Feliciano. Visite a mostra e escolha o seu Gonzaga