Dez anos após a sua partida, Gilberto Mendes continua a ressoar nas programações de festivais contemporâneos (Fernanda Luz/AT/Arquivo) Gilberto Mendes, um dos mais ousados na composição erudita brasileira, pioneiro da música-teatro, aleatória e concreta do País. Nascido em Santos, iniciou seus estudos de piano e teoria musical, influenciado por Antonietta Rudge e Cláudio Santoro. Nos anos 1960, a partir do Manifesto Música Nova, ingressou no grupo ao lado de Rogério Duprat, Willy Corrêa de Oliveira e outros vanguardistas. Essa fase marcou a oportunidade para a prática de novas técnicas: aleatoriedade, música concreta, uso de objetos cênicos e a criação de discursos estéticos que dialogavam com a cultura pop e a poesia concreta. A obra de Mendes caracterizou-se por uma linguagem na qual as partituras, os gestos, a luz e a palavra criaram performances que beiraram o happening. Em Beba Coca-Cola (1967), ele transformou o poema concretista de Décio Pignatari em um moteto coral que satirizava a cultura de massa, inserindo trechos de anúncios publicitários e sonoridades urbanas. Em Santos Football Music (1969), levou os sons de um estádio de futebol para a sala de concerto, usando gravações de torcida em fitas magnéticas e instrumentos ao vivo, antecipando o que hoje poderíamos chamar de “performance multimídia”. Outras peças de Gilberto Mendes, como Cidade (1964), Son et Lumière (1968), Música de Brinquedo (1975) e o O Último Tango em Vila Parisi (1987), exploram a teatralização da sua obra musical. Mendes via a música como um jogo de descoberta no qual o acaso, previsível, tem seu lugar. Em entrevistas, enfatizava que, se não fosse músico, teria sido cineasta. Sua paixão pelo cinema faz-se notar nas texturas sonoras e nas montagens de suas peças, sempre buscando romper a barreira entre o palco e o cotidiano, muitas vezes com a participação da plateia. Essa visão o colocou como ponte entre o erudito e o popular, influenciando gerações de compositores, intérpretes e artistas visuais. Gilberto Mendes recebeu o Prêmio Carlos Gomes, foi comendador da Ordem do Mérito Cultural, integrou a Academia Brasileira de Música e ainda teve sua obra Beba Coca-Cola incluída no repertório de coros universitários de todo o país. Grupos corais, tendo como destaque o Madrigal Ars Viva, criado em 1961 sob a tutela de Gilberto, levaram ao público diversas composições de vanguarda. Aliás, o Ars Viva tornou-se um laboratório de experimentos e de divulgação da Música Nova. Em 13 de outubro há que se lembrar, sempre, o nascimento desse ícone da arte musical brasileira e internacional. Dez anos após a sua partida, Gilberto Mendes continua a ressoar nas programações de festivais contemporâneos. Projetos como o Festival Música Nova, realizado a partir de 1963, com diversas reedições e readaptações, reavivam a nossa memória, mostrando que a linguagem híbrida ainda dialoga com o presente. A riqueza de sua produção garante que o legado do compositor santista permanece bem vivo, inspirando novos caminhos para a música erudita no Brasil e no mundo. Maurilio Tadeu de Campos é mestre em Educação, psicopedagogo, escritor, presidente da Contemporânea - Projetos Culturais e membro das Academias Vicentina e Santista de Letras