(Imagem gerada por IA) No Japão, quando alguém está diante de algo importante, não se deseja exatamente boa sorte. Diz-se gambatte. A tradução mais simples seria “dê o seu melhor”, mas certas palavras carregam mais do que cabem no dicionário. Gambatte não fala com a sorte. Fala com a pessoa. Não pergunta se tudo dará certo. Pergunta se, mesmo assim, você irá. E talvez por isso ela faça tanto sentido na cidade. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Porque a cidade não desperta quando tudo está resolvido. Ela desperta porque alguém levanta. Ainda escuro, uma janela se acende. Alguém põe água no fogo, veste o uniforme, fecha a porta devagar, desce a escada com contas na cabeça e esperança no bolso. Alguém atravessa a rua antes do sol. Alguém começa. E a cidade inteira, sem dizer palavra, parece responder: gambatte. Há quem pense que coragem mora nos grandes feitos, nos palcos, nos nomes que viram manchete. Mas a cidade sabe que não. Coragem mora também no anônimo. Na mulher que abre a loja sem saber se vai vender. No motorista do primeiro ônibus. No pedreiro que sobe o andaime. No estudante que insiste quando o corpo já queria dormir. No homem que segura o choro até o elevador fechar e, ainda assim, aperta o botão do próximo andar. A cidade é feita de concreto, ruas e semáforos, mas, sobretudo, de gente que continua. Gente que não recebeu garantias. Gente que não ouviu promessas. Gente que, mesmo com medo, foi. Cada janela acesa antes da hora é uma pequena declaração de resistência. Cada porta que se abre é um ato de fé. Cada passo dado por quem pensou em desistir e não desistiu é um milagre silencioso que ninguém noticia. Não espere que o caminho fique fácil. Não espere que o medo desapareça para começar. Apenas vá. Porque ninguém atravessa a cidade carregando certezas. Atravessa-se com coragem. Há ruas que só se revelam quando você entra nelas. Há manhãs que só pertencem a quem levanta. Há portas que só existem para quem bate. Há dias em que tudo parece pesado demais, e ainda assim alguém se ergue, respira e segue. É assim que uma cidade se sustenta. No fim, talvez seja isso. Não o concreto. Não o aço. Não as avenidas. Mas essa coragem anônima de quem acorda sem garantias, atravessa o medo, enfrenta o dia e, ainda assim, escolhe ir. De quem tropeça, hesita, quase cede, mas encontra dentro de si um passo a mais quando parecia não haver nenhum. Porque toda cidade, vista de longe, parece feita de prédios. Mas, vista de perto, é feita de gente que quase desistiu… E não desistiu. Alessandro Lopes. Arquiteto, urbanista, pesquisador em Inovação, Sustentabilidade, Infraestrutura Urbana e BIM e consultor regional ICT Multiplicidades.