“Ele não é velho. Ele só tem o cabelo cinza”. Foi o que, aos 5 anos, justificou minha filha Isabela para me “defender” diante de uma menininha com quem conversava na fila do teatro infantil. Se ela estava certa à época, hoje, não mais. Não sou idoso – por enquanto –, mas já sou velho, muito velho, rabugento. A meu favor, o fato de que, por óbvio, a culpa não é minha, afinal o inferno são os outros. O bode expiatório é a classe política pindoramense, a verdadeira culpada por eu ser ranzinza – mas apenas quando penso em política. Em outras ocasiões, não sou tão ranheta, acho que não. Então, em apneia, seguem as próximas linhas. Vou me limitar ao Legislativo. Não quero, aqui, aprofundar a corrupção endêmica, digamos, democrática que igualmente contamina políticos pindoramenses de esquerda, de centro e de direita. E nem abordar a baixa qualidade técnica de congressistas. Acredito que deputados analfabetos funcionais – sim, eles existem – não possuem condições de avaliar projetos de lei. Alguns até me chamam de fascista por pensar assim. É meu mau hábito de ser escravo da lógica. O que posso fazer? Aliás, a deficitária qualidade técnica e também moral de legisladores ajuda a explicar o fato de o Supremo Tribunal Federal (STF) ter anabolizado o próprio poder – mas isso é outra história. A bola da vez, combustível para ser rabugento, é a futilidade demonstrada por políticos de todos os espectros. Tudo começou com o “debate de interesse nacional” sobre uma propaganda de chinelos. Discussões acaloradas sobre o posicionamento político do fabricante de algo que, para mim, até então, servia apenas para proteger os pés e não para ocupar a cabeça. Depois, políticos “respeitáveis” passaram a se posicionar sobre o processo de fabricação de determinado detergente. Quase me convenceram de que há bactérias de direita e bactérias de esquerda. Será que dá para classificá-las pela cor que apresentam no microscópio? E, há poucos dias, resolveram pautar como bandeira política a convocação de Neymar para a Copa do Mundo. Fico me perguntando: se ganharmos a Copa, o responsável será Lula ou Bolsonaro? E se perdermos, será culpa do marxismo ou do capitalismo selvagem? Estamos em ano de eleições e não quero deixar que candidatos ofendam minha cognição. Sei que, qualquer que seja a cor da camisa, candidato sem propostas, se eleito, passará os próximos 4 anos debatendo futilidades e, o pior, acabando por me deixar mais rabugento. *Coronel da PM, advogado e escritor