(FreePik) A onda de frio extremo que fustigou os Estados Unidos em janeiro (no período de inverno no Hemisfério Norte) afetou mais de 200 milhões de habitantes e foi a mais severa em 40 anos, com temperaturas abaixo dos 35°C negativos e grandes volumes de neve em algumas regiões. Começou nas montanhas rochosas e se espalhou pela porção continental até a costa leste e o sul da nação. Em Nova Iorque, o Central Park quebrou o recorde de precipitação de neve em 121 anos. O Canadá, igualmente, enfrentou temperaturas extremamente baixas e nevascas recordes, atingindo grande parte do leste do país, incluindo Ontário e Quebec (com temperaturas de - 40°C). No extremo leste da Rússia, na Península Kamchatka, ocorreu a maior nevasca em 60 anos. Já na capital, Moscou, a queda de neve foi a maior registrada em 203 anos. Os negacionistas climáticos de plantão afirmam que esse frio intenso é a prova cabal da não existência do aquecimento global (como o presidente dos EUA, Donald Trump, novamente, declarou), uma invenção dos “comunistas” com o intuito de impedir o progresso. Mesmo que pareça um paradoxo, é justamente a elevação da temperatura média da Terra (com amplo embasamento científico) que levou à ocorrência desse episódio climático extremo. E isso não se manifesta somente pelas ondas de calor, como a que aconteceu no final de dezembro no Brasil, e que coincidiu com o começo do verão astronômico no Hemisfério Sul do planeta, em 21 de dezembro, às 12h03. O surgimento de ondas de frio demonstra de forma inequívoca que há um desequilíbrio no sistema climático da Terra. Existe um fenômeno denominado vórtice polar ártico, que é uma corrente de ventos fortes que confinam o ar muito frio no Polo Norte (da mesma forma que acontece no Polo Sul, na Antártida). Com a elevação das temperaturas da Terra, primordialmente no Ártico (evento conhecido como amplificação ártica), que se aquece quatro vezes mais do que no restante do planeta faz com que os padrões de circulação da atmosfera se alterem, esse vórtice polar se enfraquece e se distorce, terminando por se deslocar para regiões geográficas mais ao sul, em latitudes médias das massas terrestres do Hemisfério Norte, como aconteceu recentemente. Ademais, os oceanos estão muito quentes, o que significa aumento de evaporação, e, por extensão, mais energia na atmosfera (uma vez que ambos interagem entre si). Como esse sistema se retroalimenta, resultará, doravante, em mais ocorrências desses episódios de frio severo no inverno no Hemisfério Norte, quebrando recordes históricos (como mostraram os registros oficiais divulgados) se nada for feito para mitigar as mudanças climáticas em curso na Terra. *Lufe Bittencourt. Geógrafo