(Divulgação / ANTT) O sistema de pedágio eletrônico sem cancelas, conhecido como “Free Flow”, vem sendo apresentado como símbolo de modernização e eficiência na infraestrutura rodoviária. De fato, sob a ótica das concessionárias, trata-se de um avanço significativo. Mas a pergunta que precisa ser feita é simples: para quem, exatamente, esse modelo é um grande negócio? Do ponto de vista operacional, os ganhos são evidentes. A eliminação das praças físicas reduz drasticamente a necessidade de obras civis, desapropriações e manutenção de estruturas complexas. Soma-se a isso a redução relevante de custos com mão de obra, já que desaparece a necessidade de equipes operando cabines 24 horas por dia. O pedágio deixa de ser um ponto físico e passa a ser um sistema digital, mais enxuto, mais eficiente e, sobretudo, mais rentável. Há ainda benefícios indiretos, como a fluidez do tráfego e a redução de congestionamentos, o que melhora a experiência de quem utiliza sistemas automáticos de pagamento. Para quem possui “tag” de pedágio para pagamento, o modelo funciona quase sem fricção. O problema surge quando se observa o usuário comum, especialmente aquele que não dispõe de tag. Nesse caso, o ônus da eficiência recai integralmente sobre o motorista. Cabe a ele monitorar portais, aplicativos ou canais digitais para verificar a existência de cobranças pendentes. Não raro, a ausência de informação clara e tempestiva transforma uma simples cobrnaça em multa. É aqui que o modelo revela seu desequilíbrio. Se o sistema é capaz de identificar o veículo, registrar a passagem e gerar a cobrança, por que não garantir ao usuário um meio de pagamento direto, com envio de fatura, prazo definido e comunicação adequada antes da aplicação de penalidades? Transferir integralmente ao cidadão, mais precisamente ao proprietário do veículo, a responsabilidade de descobrir e quitar a dívida parece menos inovação e mais conveniência para o operador. E quanto à vantagem econômica? Por que parte do que é economizado pela concessionária com o free flow não é revertida em redução objetiva, transparente e auditável no valor do pedágio, especialmente quando esse modelo não estava previsto originalmente na licitação? O free flow é, sem dúvida, um grande negócio para o concessionário. Mas sua legitimidade dependerá de um princípio básico: eficiência não pode ser construída à custa da assimetria de informação e da transferência de risco ao usuário. *Valter Branco. Engenheiro, consultor, pós-graduado em Comércio Exterior e Finanças Internacionais com atuação em Navegação e Logística Multimodal