(Gerada por IA) O brasileiro pode estar com o nome sujo na praça, o CPF pendurado na lista da Serasa, a geladeira vazia e o aluguel atrasado, mas o celular, ah, o celular... Esse ninguém tira da mão dele. Nem a fome, nem o despejo, nem o corte da luz. Pode faltar tudo - menos Wi-Fi. Nove em cada dez brasileiros têm acesso à telefonia móvel, diz a Anatel. O número é bonito, enche de orgulho os discursos oficiais, rende aplausos em Brasília. Mas esconde, como sempre, um Brasil que só é moderno da cintura pra cima - do peito pra baixo, continua de cócoras na lama. Somos o país onde se divide o pacote de dados, mas não se divide o pão. Onde a mãe deixa de pagar a conta de água, mas garante o plano de internet do filho para ele não “ficar para trás”. O sinal 5G chega à roça, mas a comida não. Temos fibra óptica nos grotões, mas faltam médicos, professores e saneamento. Avançamos em direção ao futuro como quem corre num estepe furado — com o celular apontando para o mundo, mas os pés afundando na miséria. E por que isso acontece? Porque o celular virou bem de primeira necessidade. Não é mais luxo, é sobrevivência simbólica. É onde se busca trabalho (quando há), onde se acompanha o Pix do auxílio, onde se esquece um pouco da realidade com vídeos, memes, joguinhos. O celular é o novo pão e circo: alimenta pouco, distrai muito. A diferença é que, agora, o palhaço somos nós. Tem criança em favela estudando pelo smartphone da mãe, enquanto a internet cai toda hora porque a conta venceu. Tem idoso se alfabetizando no WhatsApp, porque nunca teve escola. Tem trabalhador que pede comida pelo app, mas não tem dinheiro para pagar o botijão de gás. Isso não é avanço. Isso é improviso. E o Brasil, mais uma vez, está se especializando em maquiar tragédia com estatística. Claro, é louvável que o Ministério das Comunicações esteja levando sinal até o fim do mundo. Mas não se faz inclusão digital sem inclusão social. De que adianta ter cobertura total de rede se falta cobertura de dignidade? O que adianta a antena no morro se o povo continua no porão? Não estamos dizendo que o celular é o vilão. Pelo contrário. Ele virou o porto seguro de um povo desassistido. Mas é preciso coragem pra dizer: o Brasil está conectando o que não alimenta, digitalizando o que não educa, modernizando o que não sustenta. Dia desses, um ex-colega de faculdade particular de curso de Direito, que não tinha contato há 3 anos, resgatou meu número. Não. Não foi para parabenizar por aniversário ou coisa do gênero. Ele leu um artigo meu no jornal e lembrou-se de mim. Entrou em contato para pedir “emprestados” R\$ 50,00. Isso mesmo! Eu sei que nunca mais irei receber, mas ajudei-o naquele momento. E ele entrou em contato como? Pelo celular. Pelo WhatsApp! E é assim amigos, se tudo der errado, você ainda pode pedir socorro no WhatsApp. Só não pode garantir que terá o que comer enquanto espera a resposta. *Gregório José. Jornalista, radialista e filósofo